20180424

A Figueira da Foz no 25 de Abril

Às 19 horas do dia 24 de Abril de 1974, Diniz de Almeida marcou uma reunião no então Café Nicola com Joaquim de Sousa e Mário Ribeiro, depois juntaram-se José Baldaia e Luciano Paulo (que foram esperar as tropas vindas de Aveiro e Viseu). João Russo, habituado a produzir e distribuir comunicados contra o regime, foi para Montemor-o-Velho “para ver se a GNR estava alerta”
Nessa noite, Diniz de Almeida, que passou de forma rápida por uma festa de anos, seguiu para o R.A.P. 3. No quartel, o sentinela foi desarmado. O capitão Almeida Pereira foi chamar os soldados às casernas, Sílvio Aires de Figueiredo, comandante da unidade, atónito com a situação, era detido na área da messe dos oficiais. Ao lado estava o furriel Jorge Dias, que também fotografou estes momentos. O armeiro estava renitente e não queria fornecer armamento, mas uma berliet, rebentou a porta do depósito de armas e munições. 
As tropas do C.I.C.A. 2 (outra unidade militar da cidade) chegaram ao R.A.P. 3 pelas 6 horas. A coluna foi rapidamente formada. Pelas 7 horas saiu a coluna geral em direção a Leiria e um quarto de hora depois aparecia do R.1. 14 que se lhe foi juntar no percurso. Com os cerca de 300 militares seguiam 40 viaturas, material de artilharia (bocas de fogo) e berliets “Tramagal”. O código desta operação era “November”. Juntavam-se à operação militares de Aveiro e Viseu. Esta coluna militar tinha como itinerário Leiria, Caldas da Rainha e Peniche. 
No C.I.C.A. 2 às três horas da madrugada assumiu o comando da unidade o capitão Sousa Ferreira. De serviço, da pistola à cinta, à porta do quartel, estava o oficial miliciano Jaime Gama (posteriormente Presidente da Assembleia da República) na altura a cumprir o serviço militar na Figueira da Foz. Jaime Gama recorda que “-tomámos as medidas adequadas para controlar o quartel e fomos para a Serra da Boa Viagem ouvir os códigos das rádios para iniciar as operações. A Figueira foi a grande plataforma de ação do 25 de Abril na Região Centro”, refere. 
No dia 27 de Abril, à tarde, a manifestação, que percorreu as principais ruas da cidade, já com a Figueira plenamente consciente da mudança de regime, concentrou-se no pátio da escola da D. Maria Correia, na Rua Manuel Fernandes Coelho, onde Cação Biscaia tinha o seu espaço de trabalho e uma frase exposta que dizia: “Cidadão, Mais um Esforço”. 
Adagildo Carvalho foi buscar a Bandeira Nacional à Casa Guimarães, “acho que pertencia a um grupo de antigos combatentes”, disse-me um dia, entusiasmado, Joaquim Monteiro que, entretanto foi ao número 11 da Travessa de S. Lourenço, a casa do “Chico Padeiro”, buscar uma cana de pesca. A ela amarrou a bandeira e levou-a para o Largo do Dr. Nunes, à Fonte Luminosa, e deu-a em mão à antifascista Cristina Torres que, apesar da idade avançada, a segurou e assim festejou o advento da Liberdade. É nesta conhecida imagem parada para a História que vemos Carlos Lourenço ('Simpatia'), Mário Moniz, Artur Mesquita, Tafula e outros rostos conhecidos da Figueira. 
A sede da União Nacional (onde estão atualmente os serviços de urbanismo da autarquia figueirense) foi “entregue” a João Russo, que ainda verificou alguns papéis destruídos, queimados, com nomes e fichas de perseguidos. 
A primeira sede do Partido Comunista Português, na Figueira, foi num primeiro andar (com águas furtadas e quintal) na Rua da República, por cima da então “Primorosa”. O prédio era pertença do arquiteto Viegas do Nascimento, administrador dos Estaleiros Navais do Mondego, pessoa aberta, frontal e de fácil relacionamento com os trabalhadores e por isso ainda hoje lembrada por sindicalistas da época, como frisou Joaquim Monteiro. José Freitas, António Menano e o próprio Joaquim Monteiro falaram com Viegas do Nascimento, que “até não queria dinheiro pela renda”, para que o PCP tivesse uma sede própria. A conhecida ocupação da sede acaba por se verificar apenas por dois anos, já que em 1978 a situação é prontamente regularizada com um contrato de arrendamento e o pagamento, com penalização, do período em questão. 
=Primeiro '1º de Maio' livre. À esquerda Jorge Dias=
Refira-se que o primeiro donativo ao PCP figueirense, depois do 25 de Abril, já com a organização fora da clandestinidade, foi de Mário Rente que doou 500 escudos, uma importância considerável para a época. Mário Rente que mais tarde faz parte do grupo fundador do PPD local, juntamente, entre outros, com Melo Biscaia que foi mais tarde figura do Partido Socialista. Era a liberdade a juntar pessoas e não a dividi-las. 
(Texto de António Jorge Lé / 2018 – Fotos de Jorge Dias)
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=Outro historial publicado no jornal Expresso em 25de Abril de 2018 e onde se fala na Figueira da Foz intitulado: “O papelinho com códigos secretos do 25 de Abril”  =VER AQUI
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