Há tempos, pessoa amiga, leitor atento destas crónicas e autor de belíssimos textos literários em prosa e verso, perguntou-me se considerava correcta uma frase em que o pronome interrogativo que surge precedido de o, por exemplo:
- O que estiveste a fazer ontem?
Como pronome interrogativo, que introduz uma frase de tipo interrogativo, quer com valor de substantivo (= que coisa?) quer como adjunto dum nome:
Como substantivo: - Que fizeste ontem? (que = que coisa?);
Como adjunto: - Que mal há nisso? Que maluqueira te levou a dizeres uma coisa dessas?
Com muita frequência se ouvem e escrevem frases como:
- O que fizeste ontem?;
- O que te responderam na Repartição?.
Ensinam as gramáticas que as frases interrogativas directas e indirectas são introduzidas por:
a) pronomes interrogativos (que, quem, qual, quanto (a), quê):
- Que fizeste ontem?;
Diz-me que fizeste ontem;
b) advérbios interrogativos (onde, aonde, para onde, quando, como…)
- Onde te encontras?
- Não sei onde te encontras;
c) partículas interrogativas (acaso, se)
- Acaso decidiste vir connosco?
Pergunto-te se decidiste vir connosco.
A frase interrogativa indirecta depende de outra frase com um verbo interrogativo (dizer, perguntar, querer saber, saber), à qual serve de complemento directo:
. Diz-me quem é ele;
. Perguntou-lhe aonde ia;
. Não sei se ele estava lá.
Voltando à questão de que e o que, muitos dos nossos melhores escritores empregam indiferentemente que e o que em frases interrogativas directas. Alguns exemplos extraídos de Prontuário Ortográfico, Editorial Editores, e Nova Gramática do Português Contemporâneo:
«O que é o livro? (A. Herculano, Opúsculos);
«Mas o que terá tudo isto com a jornada de Azambuja ao Cartaxo?» (A. Garrett, Viagens na Minha Terra);
«O que hei-de eu fazer?» (Rebelo da Silva, A Mocidade de D. João V);
«O que é o mundo, ó meu amor?» (F. Espanca, Sonetos).
Esta verificação não nos impede de considerar que nas frases interrogativas directas é aconselhável que se diga e escreva simplesmente que, embora Celso Cunha e Lindley Cintra, grandes autoridades nesta matéria, afirmem na Nova Gramática do Português Contemporâneo, 3.ª ed., 1986, a páginas 354: «nenhuma razão assiste aos que condenam a anteposição do o ao que interrogativo…».
Mas já nas interrogativas indirectas parece correcto dizer e escrever o que, até para destrinçar a interrogativa da integrante. Com efeito, é diferente o sentido em frases como: «Sei o que disseste a meu respeito: que procedera bem» e «Sei que disseste a meu respeito que procedera bem». Na 1.ª frase, o que equivale a quanto. A oração é interrogativa indirecta; na 2.ª frase, que introduz uma oração integrante.
Distingamos agora onde de aonde e para onde. Foi já referido numa das crónicas anteriores, que onde indica estabilidade, ausência de movimento. Ao contrário, aonde e para onde indicam movimento. Mas aonde exprime movimento sem demora, ao passo que para onde implica permanência após o movimento. Assim, é diferente o sentido de frases como:
. – Aonde vais amanhã?; - Para onde vais amanhã?
Na 1.ª frase quem pergunta supõe que o interlocutor não demora a regressar; na 2.ª frase, supõe que haverá uma permanência do seu interlocutor noutro lugar por um tempo maior ou menor. Todavia, muitas vezes emprega-se para onde com o sentido de aonde.
O que não é correcto é perguntar, por exemplo: - «Aonde estás?» a significar «Onde estás?».
Terminamos este ponto exemplificando o que foi exposto com o texto seguinte, em que ocorrem os complementos de lugar para onde, donde, onde e aonde:
S. Martinho de Anta é a terra natal de Miguel Torga, donde saiu com destino ao Brasil e mais tarde, a Coimbra, para onde foi frequentar o curso de Medicina, é onde exerceu a sua profissão. De tempos a tempos, aparecia em S. Martinho, aonde ia revisitar familiares e amigos.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (21) J. Soares / Jornal "O Dever" /11.03.010.- O que estiveste a fazer ontem?
Como pronome interrogativo, que introduz uma frase de tipo interrogativo, quer com valor de substantivo (= que coisa?) quer como adjunto dum nome:
Como substantivo: - Que fizeste ontem? (que = que coisa?);
Como adjunto: - Que mal há nisso? Que maluqueira te levou a dizeres uma coisa dessas?
Com muita frequência se ouvem e escrevem frases como:
- O que fizeste ontem?;
- O que te responderam na Repartição?.
Ensinam as gramáticas que as frases interrogativas directas e indirectas são introduzidas por:
a) pronomes interrogativos (que, quem, qual, quanto (a), quê):
- Que fizeste ontem?;
Diz-me que fizeste ontem;
b) advérbios interrogativos (onde, aonde, para onde, quando, como…)
- Onde te encontras?
- Não sei onde te encontras;
c) partículas interrogativas (acaso, se)
- Acaso decidiste vir connosco?
Pergunto-te se decidiste vir connosco.
A frase interrogativa indirecta depende de outra frase com um verbo interrogativo (dizer, perguntar, querer saber, saber), à qual serve de complemento directo:
. Diz-me quem é ele;
. Perguntou-lhe aonde ia;
. Não sei se ele estava lá.
Voltando à questão de que e o que, muitos dos nossos melhores escritores empregam indiferentemente que e o que em frases interrogativas directas. Alguns exemplos extraídos de Prontuário Ortográfico, Editorial Editores, e Nova Gramática do Português Contemporâneo:
«O que é o livro? (A. Herculano, Opúsculos);
«Mas o que terá tudo isto com a jornada de Azambuja ao Cartaxo?» (A. Garrett, Viagens na Minha Terra);
«O que hei-de eu fazer?» (Rebelo da Silva, A Mocidade de D. João V);
«O que é o mundo, ó meu amor?» (F. Espanca, Sonetos).
Esta verificação não nos impede de considerar que nas frases interrogativas directas é aconselhável que se diga e escreva simplesmente que, embora Celso Cunha e Lindley Cintra, grandes autoridades nesta matéria, afirmem na Nova Gramática do Português Contemporâneo, 3.ª ed., 1986, a páginas 354: «nenhuma razão assiste aos que condenam a anteposição do o ao que interrogativo…».
Mas já nas interrogativas indirectas parece correcto dizer e escrever o que, até para destrinçar a interrogativa da integrante. Com efeito, é diferente o sentido em frases como: «Sei o que disseste a meu respeito: que procedera bem» e «Sei que disseste a meu respeito que procedera bem». Na 1.ª frase, o que equivale a quanto. A oração é interrogativa indirecta; na 2.ª frase, que introduz uma oração integrante.
Distingamos agora onde de aonde e para onde. Foi já referido numa das crónicas anteriores, que onde indica estabilidade, ausência de movimento. Ao contrário, aonde e para onde indicam movimento. Mas aonde exprime movimento sem demora, ao passo que para onde implica permanência após o movimento. Assim, é diferente o sentido de frases como:
. – Aonde vais amanhã?; - Para onde vais amanhã?
Na 1.ª frase quem pergunta supõe que o interlocutor não demora a regressar; na 2.ª frase, supõe que haverá uma permanência do seu interlocutor noutro lugar por um tempo maior ou menor. Todavia, muitas vezes emprega-se para onde com o sentido de aonde.
O que não é correcto é perguntar, por exemplo: - «Aonde estás?» a significar «Onde estás?».
Terminamos este ponto exemplificando o que foi exposto com o texto seguinte, em que ocorrem os complementos de lugar para onde, donde, onde e aonde:
S. Martinho de Anta é a terra natal de Miguel Torga, donde saiu com destino ao Brasil e mais tarde, a Coimbra, para onde foi frequentar o curso de Medicina, é onde exerceu a sua profissão. De tempos a tempos, aparecia em S. Martinho, aonde ia revisitar familiares e amigos.
----------------------------------
Simplex ou símplex?
Leucémia ou leucemia?
Leucémia ou leucemia?
Na nossa língua as palavras de duas ou mais sílabas terminadas em – x são g
raves, tendo acento agudo na penúltima sílaba. Assim, em nomes próprios temos Obélix, Astérix, Félix, Pólux; em nomes comuns temos, por exemplo, índex, ónix, fénix, vortex, sílex, e em adjectivos dúplex, tríplex. Nesta linha de pensamento, não são correctas prónúncias como Asterix ou duplex, que se ouvem com muita frequência.
Há poucos anos foi criado um neologismo com o qual se pretendia significar a agilidade, rapidez ou simplificação de processos, designadamente na área da criação de empresas. Esse novo termo foi o símplex. Os dicionários ainda o não registam, mas apresentam dúplex e tríplex, que são duas palavras latinas. Ora simplex é outra palavra latina com o sentido de «simples, claro, não rebuscado». Assim sendo, devemos dizer e escrever símplex e não simplex, à semelhança de dúplex e tríplex, com acento tónico e gráfico na 1.ª sílaba (sím -).
Ocorrem-me à mente de momento duas palavras que todos pronunciamos na última sílaba: platex e pirex. Quanto a platex (aglomerado de madeira) não vem registada em nenhum dos dicionários que consultei. Quanto a pirex, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, refere pirex; o Dicionário da Língua Portugesa, 2010, da Porto Editora regista pirex e pírex como palavras idênticas, e o Dicionário Completo da Língua Portuguesa, Texto Editores, refere só pírex.
Em que ficamos? Neste caso, parece-me de bom senso dar a primazia ao uso, uma vez que a palavra, com origem no grego pyr, «fogo», não é relacionável com outras, como símplex, dúplex, tríplex.
Do grego provêm também palavras compostas em que o segundo elemento é – emia, d
e haima, «sangue»: leucemia, glicemia, septicemia, alcoolemia. Leucemia é o aumento de glóbulos brancos no sangue; glicemia é a taxa de glicose no sangue; septicemia é a contaminação do sangue; alcoolemia é o nível de álcool no sangue. Destas palavras, só o Dicionário da Porto Editora, é que regista alcoolémia remetendo para alcoolemia. Portanto, a pronúncia correcta é com o acento tónico na sílaba – mi -, à semelhança do que acontece com outras palavras compostas de origem no grego e que não suscitam dúvidas, tais como democracia, filantropia, filososfia, pedofilia, demagogia, poligamia, caligrafia, filologia, astronomia, monotonia, antropologia, etc.
Na linguagem oral ouvimos com frequeência septicémia, glicémia, alcoolémia. Porém, estas palavras devem ser acentuadas tonicamente na sílaba – mi - e não devem ter acento gráfico.
Objectar-se-me-á que há palavras como blasfémia, boémia, Eufémia, Noémia… Mas essas chegaram através do latim, que desvia o acento tónico da penúltima para a antepenúltima sílaba neste tipo de palavras. Por exemplo: a palavra grega filosofia passou a pronunciar-se filosófia em latim, um processo odêntico ao que hoje se verifica na palavra democracia, que em castelhano é democrácia. Por outro lado, nas palavras leucemia, septicemia, glicemia, alcoolemia, o elemento – emia tem sempre o mesmo significado, o que não acontece com as outras. A propósito de Eufémia, é interessante observar que ao lado deste nome próprio, temos o nome comum eufemia. Eufémia é «a que pronuncia bem»; eufemia é «a palavra favorável, boa». Isto prova que eufemia nos chegou directamente do grego enquanto Eufémia teve como intermediário o latim.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (20) J. Soares / Jornal "O Dever" /04.03.010.
Há poucos anos foi criado um neologismo com o qual se pretendia significar a agilidade, rapidez ou simplificação de processos, designadamente na área da criação de empresas. Esse novo termo foi o símplex. Os dicionários ainda o não registam, mas apresentam dúplex e tríplex, que são duas palavras latinas. Ora simplex é outra palavra latina com o sentido de «simples, claro, não rebuscado». Assim sendo, devemos dizer e escrever símplex e não simplex, à semelhança de dúplex e tríplex, com acento tónico e gráfico na 1.ª sílaba (sím -).
Ocorrem-me à mente de momento duas palavras que todos pronunciamos na última sílaba: platex e pirex. Quanto a platex (aglomerado de madeira) não vem registada em nenhum dos dicionários que consultei. Quanto a pirex, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, refere pirex; o Dicionário da Língua Portugesa, 2010, da Porto Editora regista pirex e pírex como palavras idênticas, e o Dicionário Completo da Língua Portuguesa, Texto Editores, refere só pírex.
Em que ficamos? Neste caso, parece-me de bom senso dar a primazia ao uso, uma vez que a palavra, com origem no grego pyr, «fogo», não é relacionável com outras, como símplex, dúplex, tríplex.
Do grego provêm também palavras compostas em que o segundo elemento é – emia, d
Na linguagem oral ouvimos com frequeência septicémia, glicémia, alcoolémia. Porém, estas palavras devem ser acentuadas tonicamente na sílaba – mi - e não devem ter acento gráfico.
Objectar-se-me-á que há palavras como blasfémia, boémia, Eufémia, Noémia… Mas essas chegaram através do latim, que desvia o acento tónico da penúltima para a antepenúltima sílaba neste tipo de palavras. Por exemplo: a palavra grega filosofia passou a pronunciar-se filosófia em latim, um processo odêntico ao que hoje se verifica na palavra democracia, que em castelhano é democrácia. Por outro lado, nas palavras leucemia, septicemia, glicemia, alcoolemia, o elemento – emia tem sempre o mesmo significado, o que não acontece com as outras. A propósito de Eufémia, é interessante observar que ao lado deste nome próprio, temos o nome comum eufemia. Eufémia é «a que pronuncia bem»; eufemia é «a palavra favorável, boa». Isto prova que eufemia nos chegou directamente do grego enquanto Eufémia teve como intermediário o latim.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (20) J. Soares / Jornal "O Dever" /04.03.010.
-----------------------------------
O predicado e o sujeito
Nas frases em que o sujeito é simples (um único nome ou pronome), o predicado concorda com ele em número e pessoa:
. eu escrevo; o João escreve; nós escrevemos; os autores escrevem; tu escreves.
Esta é a regra geral. Há, porém, muitas situações específicas, das quais se torna oportuno referir apenas as mais frequentes. Assim:
- Quando o sujeito é que precedido de um dos, uma das, o predicado vai para o plural:
. Sou um dos que acreditam na inocência do rapaz;
. A Júlia foi uma das que assistiram a tudo;
- Quando o sujeito é quem, o predicado, por regra, vem na 3.ª pessoa do singular:
. És tu quem me vai ajudar;
. Foram os da retaguarda quem primeiro deu pela falta do companheiro.
- Quando o sujeito é um nome de lugar ou título de obra, temos duas situações:
1.ª – o verbo vem no singular se o nome não tiver artigo:
. Guimarães é uma cidade muito linda; Gaibéus é uma obra de Alves Redol;
2.ª – o verbo vem no plural se o nome tiver artigo:
. Os Maias são uma obra de Eça de Queirós.
- No caso do verbo ser, quando o sujeito é isto, isso, aquilo, tudo, o que, o resto, o mais, e o predicativo vem no plural, ou a frase é impessoal, emprega-se o plural:
. Isso são os ossos do ofício;
. Na festa o que houve de mais saliência foram as cores variadas das flores;
. Tudo na vida são incidentes de maior ou menor importância;
. O resto da paisagem eram montes escalavrados;
. Eram aproximadamente dez horas;
Porém, se o sujeito é uma expressão numérica, o verbo ser já vem no singular:
. Noventa anos é já uma linda idade!;
. – Quer por isso quinhentos euro? Quinhentos euro não é pedir demasiado? (Nota: deve dizer-se e escrever-se 5 euro, 10 euro, 20 euro e não 5 euros, 10 euros, 20 euros).
Passemos agora a frases em que o sujeito é composto (dois ou mais nomes ou pronomes):
- Quando são das 1.ª, 2.ª e 3.ª pessoas, predomina a 1.ª do plural:
. Eu, tu, e o Francisco vamos a Lisboa;
- Quando há um sujeito das 2.ª e 3.ª pessoas, emprega-se tanto a 2.ª como a 3.ª do plural:
. Tu e ele ireis a Lisboa; tu e ele irão a Lisboa.
- Quando os sujeitos são da 3.ª pessoa, o predicado vai, logicamente, para a 3.ª:
. Mãe e filha saíram a passeio.
Porém, se o sujeito vier depois do predicado, este também pode ficar no singular:
. Saíram / saiu à rua mãe e filha.
Passando a situações específicas, convém tomar atenção às seguintes:
- num sujeito composto sintetizado por nada, ninguém, tudo, o predicado vem no singular:
. O elogio, a fama, a riqueza, nada o preocupava;
. Juízes, médicos, amigos, ninguém o conseguiu convencer;
. Dor, alegria, tristeza, desilusão, tudo faz parte da vida.
- com dois ou mais infinitivos como sujeito, o predicado vem no singular:
. Olhar e ver não é a mesma coisa;
. Vê-lo e amá-lo foi obra de um momento.
- com os sujeitos um ou outro, o verbo vai, por regra, para o singular:
. No tempo da minha infância só um ou outro usava sapatos.
Mas a expressão nem um nem outro já é acompanhada do plural:
. Nem um nem outro compreenderam a gravidade do caso.
Pelo exposto se pode concluir que a concordância do predicado com o sujeito tem muito que se lhe diga. E apenas nos referimos aos casos mais ocorrentes!
COMO DIZER, COMO ESCREVER (19) J. Soares / Jornal "O Dever" /25.02.010.. eu escrevo; o João escreve; nós escrevemos; os autores escrevem; tu escreves.
Esta é a regra geral. Há, porém, muitas situações específicas, das quais se torna oportuno referir apenas as mais frequentes. Assim:
- Quando o sujeito é que precedido de um dos, uma das, o predicado vai para o plural:
. Sou um dos que acreditam na inocência do rapaz;
. A Júlia foi uma das que assistiram a tudo;
- Quando o sujeito é quem, o predicado, por regra, vem na 3.ª pessoa do singular:
. És tu quem me vai ajudar;
. Foram os da retaguarda quem primeiro deu pela falta do companheiro.
- Quando o sujeito é um nome de lugar ou título de obra, temos duas situações:
1.ª – o verbo vem no singular se o nome não tiver artigo:
. Guimarães é uma cidade muito linda; Gaibéus é uma obra de Alves Redol;
2.ª – o verbo vem no plural se o nome tiver artigo:
. Os Maias são uma obra de Eça de Queirós.
- No caso do verbo ser, quando o sujeito é isto, isso, aquilo, tudo, o que, o resto, o mais, e o predicativo vem no plural, ou a frase é impessoal, emprega-se o plural:
. Isso são os ossos do ofício;
. Na festa o que houve de mais saliência foram as cores variadas das flores;
. Tudo na vida são incidentes de maior ou menor importância;
. O resto da paisagem eram montes escalavrados;
. Eram aproximadamente dez horas;
Porém, se o sujeito é uma expressão numérica, o verbo ser já vem no singular:
. Noventa anos é já uma linda idade!;
. – Quer por isso quinhentos euro? Quinhentos euro não é pedir demasiado? (Nota: deve dizer-se e escrever-se 5 euro, 10 euro, 20 euro e não 5 euros, 10 euros, 20 euros).
Passemos agora a frases em que o sujeito é composto (dois ou mais nomes ou pronomes):
- Quando são das 1.ª, 2.ª e 3.ª pessoas, predomina a 1.ª do plural:
. Eu, tu, e o Francisco vamos a Lisboa;
- Quando há um sujeito das 2.ª e 3.ª pessoas, emprega-se tanto a 2.ª como a 3.ª do plural:
. Tu e ele ireis a Lisboa; tu e ele irão a Lisboa.
- Quando os sujeitos são da 3.ª pessoa, o predicado vai, logicamente, para a 3.ª:
. Mãe e filha saíram a passeio.
Porém, se o sujeito vier depois do predicado, este também pode ficar no singular:
. Saíram / saiu à rua mãe e filha.
Passando a situações específicas, convém tomar atenção às seguintes:
- num sujeito composto sintetizado por nada, ninguém, tudo, o predicado vem no singular:
. O elogio, a fama, a riqueza, nada o preocupava;
. Juízes, médicos, amigos, ninguém o conseguiu convencer;
. Dor, alegria, tristeza, desilusão, tudo faz parte da vida.
- com dois ou mais infinitivos como sujeito, o predicado vem no singular:
. Olhar e ver não é a mesma coisa;
. Vê-lo e amá-lo foi obra de um momento.
- com os sujeitos um ou outro, o verbo vai, por regra, para o singular:
. No tempo da minha infância só um ou outro usava sapatos.
Mas a expressão nem um nem outro já é acompanhada do plural:
. Nem um nem outro compreenderam a gravidade do caso.
Pelo exposto se pode concluir que a concordância do predicado com o sujeito tem muito que se lhe diga. E apenas nos referimos aos casos mais ocorrentes!
------------------------------
O emprego do ponto e vírgula
Com a vírgula está relacionado o ponto e vírgula, uma vez que a função essencial de ambos é assinalar as pausas no encadeamento das frases.
Também o ponto e vírgula não escapa à subjectividade de cada utente da língua. Nuns casos,
ele equivale a uma vírgula alongada; noutros aproxima-se dum ponto reduzido. Vejamos então as situações em que o seu emprego é recomendado:
- em orações coordenadas relativamente extensas:
. No Continente há uma clara variação da temperatura de Norte para Sul e do interior para o litoral: no interior atinge valores extremos no Inverno e no Verão; no litoral é menos variável de Norte para Sul; apesar disso, o Algarve é bem mais quente do que o Minho.
- em duas ou mais orações subordinadas à mesma subordinante:
. É urgente pensarmos que a Terra é a nossa casa comum; que todos os países têm direito ao seu desenvolvimento, mas sem agredir o ambiente; que os países mais ricos o dever de facultar tecnologia aos mais pobres; que é imperativo de todas as nações um esforço para defender as condições de vida do planeta.
- a separar os elementos duma enumeração:
. São diversas as razões que têm levado e continuam a levar muitos compatriotas nossos a emigrar:
a) melhorar as condições materiais próprias ou da sus família;
b) adquirir os meios que permitam a formação cultural e profissional dos filhos;
c) providenciar um futuro melhor;
d) conseguir garantias duma existência condigna na velhice.
. O Minho é sulcado por muitos cursos de água: o Minho, mais a Norte; o Lima, o Homem e o Cavado, ao Centro; o Ave e o Tâmega, a Sul.
- antes de conjunções adversativas (mas, porém, no entanto, todavia, contudo) ou conclusivas (logo, pois, portanto, por isso), para acentuar o sentido adversativo ou conclusivo da frase:
. Ele andava muito ocupado; mas não deixou de tentar conseguir uns momentos para nos receber;
. Ele andava muito ocupado; por isso não pôde responder logo ao que lhe fora solicitado.
Nestes dois exemplos estaria também correcta a vírgula no lugar do ponto e vírgula.
Do que foi exposto sobre estes dois sinais de pontuação podemos então concluir: ao nível oral, a vírgula marca essencialmente uma pausa, uma ligeira suspensão da voz à espera de que o período se complete; o ponto e vírgula indica uma pausa mais acentuada. Ao nível da escrita, ambos os sinais contribuem para a inteligibilidade do texto.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (18) J. Soares / Jornal "O Dever" /18.02.010.Também o ponto e vírgula não escapa à subjectividade de cada utente da língua. Nuns casos,
ele equivale a uma vírgula alongada; noutros aproxima-se dum ponto reduzido. Vejamos então as situações em que o seu emprego é recomendado:- em orações coordenadas relativamente extensas:
. No Continente há uma clara variação da temperatura de Norte para Sul e do interior para o litoral: no interior atinge valores extremos no Inverno e no Verão; no litoral é menos variável de Norte para Sul; apesar disso, o Algarve é bem mais quente do que o Minho.
- em duas ou mais orações subordinadas à mesma subordinante:
. É urgente pensarmos que a Terra é a nossa casa comum; que todos os países têm direito ao seu desenvolvimento, mas sem agredir o ambiente; que os países mais ricos o dever de facultar tecnologia aos mais pobres; que é imperativo de todas as nações um esforço para defender as condições de vida do planeta.
- a separar os elementos duma enumeração:
. São diversas as razões que têm levado e continuam a levar muitos compatriotas nossos a emigrar:
a) melhorar as condições materiais próprias ou da sus família;
b) adquirir os meios que permitam a formação cultural e profissional dos filhos;
c) providenciar um futuro melhor;
d) conseguir garantias duma existência condigna na velhice.

. O Minho é sulcado por muitos cursos de água: o Minho, mais a Norte; o Lima, o Homem e o Cavado, ao Centro; o Ave e o Tâmega, a Sul.
- antes de conjunções adversativas (mas, porém, no entanto, todavia, contudo) ou conclusivas (logo, pois, portanto, por isso), para acentuar o sentido adversativo ou conclusivo da frase:
. Ele andava muito ocupado; mas não deixou de tentar conseguir uns momentos para nos receber;
. Ele andava muito ocupado; por isso não pôde responder logo ao que lhe fora solicitado.
Nestes dois exemplos estaria também correcta a vírgula no lugar do ponto e vírgula.
Do que foi exposto sobre estes dois sinais de pontuação podemos então concluir: ao nível oral, a vírgula marca essencialmente uma pausa, uma ligeira suspensão da voz à espera de que o período se complete; o ponto e vírgula indica uma pausa mais acentuada. Ao nível da escrita, ambos os sinais contribuem para a inteligibilidade do texto.
---------------------------------
Sinais de entoação: pontos de exclamação;
reticências, parênteses; travessão
reticências, parênteses; travessão
De todos os sinais de pontuação, o ponto de exclamação é o mais expressivo sob o ponto de vista emocional. Se as emoções têm a ver com o coração, este é o sinal que está mais perto dele. Coloca-se a seguir a interjeições e no final das frases que exprimem sentimentos (alegria, tristeza, cólera, desencanto, desilusão, amargura, ódio, vingança, dor, espanto, súplica, etc.) ou manifestações de vontade:
. Ai! Estou que nem me aguento nas pernas!
. «Que alegria quando me disseram: vamos para a casa do Senhor!»
. Vai trabalhar, malandro!
. Vamos! São horas!
As reticências são um sinal também rico em expressividade. Traduzem uma suspensão no discurso deixando ao pensamento de que lê as palavras em suspenso:
. És capaz de ter razão. Eu é que…
. «Duas horas te esperei.
. Duas horas de esperaria.
. Se gostas de mim não sei…
Algum dia há-de ser dia…» (F. Pessoa)
Noutros casos as reticências traduzem estados de espírito (dúvida, timidez, alegria, tristeza, cólera):
. Os pais da moça são boas pessoas, é verdade. Mas quanto a ela…
. Tanto dinheiro gasto… Para nada!
Empregam-se ainda para traduzir uma interrupção na fala dos interlocutores:
- Ias tu a dizer que…
- Que «quem não quer ser lobo não lhe veste a pele».
Os pontos de interrogação, de exclamação e as reticências podem vir combinados. Se numa frase predomina o tom interrogativo, surge primeiro o ponto de interrogação. Inversamente, se domina o tom exclamativo, vem em primeiro lugar o ponto de exclamação:
- O quê? Ela foi capaz de dizer uma coisa dessas?! É preciso ser muito desavergonhada!
- E vieste tu acordar-me a esta hora para me dizeres tal coisa!?
Quando uma pergunta envolve dúvidas, o ponto de interrogação é seguido de reticências:
- Então que tens tu?... Estás aborrecido comigo?...
O mesmo se passa quando os pontos de interrogação e exclamação vêm combinados e se pretende dar a ideia de incerteza:
- Foi um desastre! Quem havia de dizer que tudo iria acabar daquela maneira?!...
Passemos aos parênteses. Estes traduzem um abaixamento da voz e funcionam como um esclarecimento da ideia principal, uma reflexão, um comentário:
. O Mendonça (que não era homem para se ficar) apareceu em casa do Martins a exigir explicações;
. Os azares da vida (estava bem consciente disso) tinham-lhe batido à porta;
. O objectivo daquela luta era o mesmo (se realmente interpretava bem) para todos os descontentes.
Também se empregam parênteses para referenciar datas, indicações bibliográficas, informações cénicas nas peças de teatro:
«Boa tarde, aí!... (silêncio). Eh, Maria Emília! Maria Emília!...»
(Alves Redol, Teatro, Maria Emília, Publicações Europa-América, 1966, p. 210).
Finalmente o travessão emprega-se como sinal de entoação numa função idêntica a dos parênteses:
. O rapaz – ao que me pareceu – estava mesmo fora de si.
Com mais frequência emprega-se para introduzir a fala no discurso directo ou para indicar a intromissão do narrador na fala da personagem:
- Ai que desgraça! O Rodrigo matou a mulher!
- Depois duma longa discussão – esclareceu a Alzira – o Rodrigo esfaqueou a Deolinda.
Também se usa para destacar a parte final duma afirmação:
«Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita –
O todo ou o seu nada».
(Fernando Pessoa, Mensagem)
COMO DIZER, COMO ESCREVER (17) J. Soares / Jornal "O Dever" /11.02.010.. Ai! Estou que nem me aguento nas pernas!
. «Que alegria quando me disseram: vamos para a casa do Senhor!»
. Vai trabalhar, malandro!
. Vamos! São horas!
As reticências são um sinal também rico em expressividade. Traduzem uma suspensão no discurso deixando ao pensamento de que lê as palavras em suspenso:
. És capaz de ter razão. Eu é que…
. «Duas horas te esperei.
. Duas horas de esperaria.
. Se gostas de mim não sei…
Algum dia há-de ser dia…» (F. Pessoa)
Noutros casos as reticências traduzem estados de espírito (dúvida, timidez, alegria, tristeza, cólera):
. Os pais da moça são boas pessoas, é verdade. Mas quanto a ela…
. Tanto dinheiro gasto… Para nada!
Empregam-se ainda para traduzir uma interrupção na fala dos interlocutores:
- Ias tu a dizer que…
- Que «quem não quer ser lobo não lhe veste a pele».
Os pontos de interrogação, de exclamação e as reticências podem vir combinados. Se numa frase predomina o tom interrogativo, surge primeiro o ponto de interrogação. Inversamente, se domina o tom exclamativo, vem em primeiro lugar o ponto de exclamação:
- O quê? Ela foi capaz de dizer uma coisa dessas?! É preciso ser muito desavergonhada!
- E vieste tu acordar-me a esta hora para me dizeres tal coisa!?
Quando uma pergunta envolve dúvidas, o ponto de interrogação é seguido de reticências:
- Então que tens tu?... Estás aborrecido comigo?...
O mesmo se passa quando os pontos de interrogação e exclamação vêm combinados e se pretende dar a ideia de incerteza:
- Foi um desastre! Quem havia de dizer que tudo iria acabar daquela maneira?!...
Passemos aos parênteses. Estes traduzem um abaixamento da voz e funcionam como um esclarecimento da ideia principal, uma reflexão, um comentário:
. O Mendonça (que não era homem para se ficar) apareceu em casa do Martins a exigir explicações;
. Os azares da vida (estava bem consciente disso) tinham-lhe batido à porta;
. O objectivo daquela luta era o mesmo (se realmente interpretava bem) para todos os descontentes.
Também se empregam parênteses para referenciar datas, indicações bibliográficas, informações cénicas nas peças de teatro:
«Boa tarde, aí!... (silêncio). Eh, Maria Emília! Maria Emília!...»
(Alves Redol, Teatro, Maria Emília, Publicações Europa-América, 1966, p. 210).
Finalmente o travessão emprega-se como sinal de entoação numa função idêntica a dos parênteses:
. O rapaz – ao que me pareceu – estava mesmo fora de si.
Com mais frequência emprega-se para introduzir a fala no discurso directo ou para indicar a intromissão do narrador na fala da personagem:
- Ai que desgraça! O Rodrigo matou a mulher!
- Depois duma longa discussão – esclareceu a Alzira – o Rodrigo esfaqueou a Deolinda.
Também se usa para destacar a parte final duma afirmação:
«Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita –
O todo ou o seu nada».
(Fernando Pessoa, Mensagem)
------------------------------------
Sinais de Entoação:
dois pontos e ponto de interrogação
dois pontos e ponto de interrogação
A pontuação não passa duma convenção segundo a qual o texto escrito tenta reflectir as marcas do texto oral. Através dela, o autor do discurso aponta as pausas e os acentos melódicos que considera apropriados à leitura correcta. Por seu lado, o leitor é ajudado a interpretar com fidelidade o pensamento e as emoções do autor. Porém, não há pontuação capaz de traduzir toda a gama melódica do texto oral, sobretudo quando este se encontra carrega
do de multímodos estados de alma.
Falámos anteriormente nos sinais que indicam sobretudo as pausas. Falamos agora dos sinais que traduzem essencialmente a entoação própria do texto oral: os dois pontos; os pontos de interrogação e de exclamação; as reticências; os parênteses; o travessão.
Comecemos então pelos dois pontos. Eles indicam uma suspensão ligeira da melodia duma frase não concluída. Após a suspensão, o tom de voz torna-se ligeiramente mais baixo. Empregam-se:
- quando se faz uma citação:
. Há um ditado que muitas vezes não corresponde à realidade: «Voz do povo, voz de Deus»;
- na transição para o discurso directo, a preceder o travessão:
. O homem abriu os olhos num gesto de espanto e comentou:
- Nunca se viu uma coisa assim.
- quando se segue uma enumeração:
. Apesar de a maioria da população se encontrar no litoral, há ainda grandes centros populacionais no interior: Braga, Vila Real, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, e outros;
- quando uma
frase explica ou confirma outra frase anterior a ela:
. Via-se que o rapaz não estava bem: o resto denunciava um acesso de febre.
. A testemunha teimava no seu depoimento: tinha visto tudo o que afirmara com aqueles olhos que a terra lhe havia de comer.
- em substituição duma conjunção causal ou consecutiva
. Os terrenos estão empapados: a chuva tem sido constante;
. Naquele momento ela sentia-se perdida: nem atinava com o local em que se encontrava;
. Ele não partilha da tua opinião: diz mesmo que estás rotundamente enganado.
Menos frequentemente os dois pontos empregam-se também na sequência dum vocativo em cabeçalhos de requerimentos, exposições, cartas:
. Excelentíssimo Senhor
Ministro da Educação:
Caro amigo Luís:
Nesta situação é mais frequente a utilização da vírgula.
O ponto de interrogação emprega-se no fim de frases interrogativas directas, mesmo que não pressuponham resposta:
. A que horas partimos?
. Não é a irresponsabilidade de muitas pessoas umas das causas dos males da sociedade?
COMO DIZER, COMO ESCREVER (16) J. Soares / Jornal "O Dever" /04.02.010.Falámos anteriormente nos sinais que indicam sobretudo as pausas. Falamos agora dos sinais que traduzem essencialmente a entoação própria do texto oral: os dois pontos; os pontos de interrogação e de exclamação; as reticências; os parênteses; o travessão.
Comecemos então pelos dois pontos. Eles indicam uma suspensão ligeira da melodia duma frase não concluída. Após a suspensão, o tom de voz torna-se ligeiramente mais baixo. Empregam-se:
- quando se faz uma citação:
. Há um ditado que muitas vezes não corresponde à realidade: «Voz do povo, voz de Deus»;
- na transição para o discurso directo, a preceder o travessão:
. O homem abriu os olhos num gesto de espanto e comentou:
- Nunca se viu uma coisa assim.
- quando se segue uma enumeração:
. Apesar de a maioria da população se encontrar no litoral, há ainda grandes centros populacionais no interior: Braga, Vila Real, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, e outros;
- quando uma
. Via-se que o rapaz não estava bem: o resto denunciava um acesso de febre.
. A testemunha teimava no seu depoimento: tinha visto tudo o que afirmara com aqueles olhos que a terra lhe havia de comer.
- em substituição duma conjunção causal ou consecutiva
. Os terrenos estão empapados: a chuva tem sido constante;
. Naquele momento ela sentia-se perdida: nem atinava com o local em que se encontrava;
. Ele não partilha da tua opinião: diz mesmo que estás rotundamente enganado.
Menos frequentemente os dois pontos empregam-se também na sequência dum vocativo em cabeçalhos de requerimentos, exposições, cartas:
. Excelentíssimo Senhor
Ministro da Educação:
Caro amigo Luís:
Nesta situação é mais frequente a utilização da vírgula.
O ponto de interrogação emprega-se no fim de frases interrogativas directas, mesmo que não pressuponham resposta:
. A que horas partimos?
. Não é a irresponsabilidade de muitas pessoas umas das causas dos males da sociedade?
------------------------------------
Ainda o emprego da vírgula
Concluindo o tema iniciado na crónica anterior, vamos passar em revista mais alguns dos casos gerais de emprego da vírgula:
- nos advérbios sim e não, quando no início duma frase referida a outra anterior:
- Mas o p
rofessor disse exactamente isso?
- Não, ele quis dizer algo de diferente.
- E não lhe pediram que fosse mais preciso?
- Sim, e ele não se escusou;
- nos elementos secundários duma frase, designadamente os complementos circunstanciais intercalados nos elementos essenciais dessa frase:
. Os dois amigos encontraram-se, ontem à noite, ocasionalmente, na Rua da república. Falaram longamente, detalhadamente, sobre vários assuntos. O Luís ficou a saber, com surpresa, que a vida do amigo Carlos estava a correr mal;
- nas orações subordinadas adverbiais quando precedem a subordinante:
. Assim que ouviu o toque da sirene, pensou logo num acidente;
. Se concordares com esta ideia, podemos dar o assunto por concluído;
. Como ninguém mais se pronunciou, a sessão foi encerrada;
. Embora ainda faltassem muitos dias para a festa, as ruas já se apresentavam engalanadas;
. Para depois não terem surpresas, começaram a preparar a viagem atempadamente;
- nas orações intercaladas:
. Lá vens tu, dizia o Luís, com as ideias do costume;
O emprego da vírgula é particularmente importante em frases com orações relativas porque a vírgula altera o sentido da frase. Uma coisa é escrever «o professor censurou os alunos que se tinham portado mal» (oração relativa restritiva), outra coisa, bem diferente é escrever «o professor censurou os alunos, que se tinham portado mal» (oração relativa explicativa). No primeiro caso transmite-se a ideia de que o professor censurou apenas os alunos mal comportados (uma parte); no segundo caso o emprego da vírgula i
ndica que a censura do professor foi dirigida à totalidade dos alunos.
A vírgula emprega-se ainda noutras situações que, por serem menos ocorrentes e mais pormenorizadas, não vale a pena serem referidas.
Passados em revista os casos mais frequentes do emprego da vírgula, tomemos agora atenção àqueles em que não se deve empregar.
Nunca ela se emprega a separar:
- o sujeito do predicado;
- o predicado dos seus complementos (directo, indirecto, predicativo do complemento directo);
- o atributo do nome a que se refere;
- o complemento determinativo;
- o predicativo do sujeito.
Concluímos este ponto com o texto seguinte:
Nos últimos dias a chuva inundou os campos e foi muito benéfica para eles porque havia falta de humidade. Os agricultores consideraram-na uma bênção celestial porque a verdura dos terrenos é a fonte de alimentação do gado.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (15) J. Soares / Jornal "O Dever" / 28.01.010.- nos advérbios sim e não, quando no início duma frase referida a outra anterior:
- Mas o p
rofessor disse exactamente isso?- Não, ele quis dizer algo de diferente.
- E não lhe pediram que fosse mais preciso?
- Sim, e ele não se escusou;
- nos elementos secundários duma frase, designadamente os complementos circunstanciais intercalados nos elementos essenciais dessa frase:
. Os dois amigos encontraram-se, ontem à noite, ocasionalmente, na Rua da república. Falaram longamente, detalhadamente, sobre vários assuntos. O Luís ficou a saber, com surpresa, que a vida do amigo Carlos estava a correr mal;
- nas orações subordinadas adverbiais quando precedem a subordinante:
. Assim que ouviu o toque da sirene, pensou logo num acidente;
. Se concordares com esta ideia, podemos dar o assunto por concluído;
. Como ninguém mais se pronunciou, a sessão foi encerrada;
. Embora ainda faltassem muitos dias para a festa, as ruas já se apresentavam engalanadas;
. Para depois não terem surpresas, começaram a preparar a viagem atempadamente;
- nas orações intercaladas:
. Lá vens tu, dizia o Luís, com as ideias do costume;
O emprego da vírgula é particularmente importante em frases com orações relativas porque a vírgula altera o sentido da frase. Uma coisa é escrever «o professor censurou os alunos que se tinham portado mal» (oração relativa restritiva), outra coisa, bem diferente é escrever «o professor censurou os alunos, que se tinham portado mal» (oração relativa explicativa). No primeiro caso transmite-se a ideia de que o professor censurou apenas os alunos mal comportados (uma parte); no segundo caso o emprego da vírgula i
ndica que a censura do professor foi dirigida à totalidade dos alunos.A vírgula emprega-se ainda noutras situações que, por serem menos ocorrentes e mais pormenorizadas, não vale a pena serem referidas.
Passados em revista os casos mais frequentes do emprego da vírgula, tomemos agora atenção àqueles em que não se deve empregar.
Nunca ela se emprega a separar:
- o sujeito do predicado;
- o predicado dos seus complementos (directo, indirecto, predicativo do complemento directo);
- o atributo do nome a que se refere;
- o complemento determinativo;
- o predicativo do sujeito.
Concluímos este ponto com o texto seguinte:
Nos últimos dias a chuva inundou os campos e foi muito benéfica para eles porque havia falta de humidade. Os agricultores consideraram-na uma bênção celestial porque a verdura dos terrenos é a fonte de alimentação do gado.
--------------------------------
O emprego do hífen
Dos vários sinais de pontuação, uns traduzem sobretudo as pausas do encadeamento do discurso oral; outros indicam dominantemente a entoação do mesmo discurso.
A pontuação funciona como auxiliar da compreensão dum texto escrito. Dentre os sinais de pontuação sobressai a vírgula. Ela é tão importante que o comum dos utentes da língua se refere à pontuação como o acto de «pôr as vírgulas».
Vamos então tentar adquirir ideias precisas sobre o emprego da vírgula. Esta tem duas finalidades: facilitar a inteligibilidade do texto e valorizar a entoação do mesmo, através de pausas, quando lido em voz alta. Mas registe-se desde já que não há uma maneira única de virgular um texto. Se dermos a duas pessoas, ambas entendidas na matéria, o mesmo texto sem vírgulas, verificaremos que não coincidirão no emprego da vírgula (e noutros sinais de pontuação). Portanto, o emprego da vírgula varia de autor para autor: enquanto uns exageram no seu uso, outros reduzem-no ao estritamente necessário. Há, contudo, algumas regras comuns a uns e outros. A vírgula emprega-se:
- quando se chama alguém (vocativo):
. Maria, chega aqui ao pé de mim;
- em frases com aposto:
. O Manuel, o mais novo dos irmãos, chamou a Maria;
- nas orações coordenadas (copulativas sem a conjunção e, adversativas, disjuntivas, conclusivas, explicativas):
. No Inverno chove, neva, faz frio. Ou a neve cai, ou o chão se cobre de gelo e geada. O frio aperta, portanto, no campo, a família reúne-se à volta da lareira. Esta época, segundo afirmam alguns, era o período das férias da gente do campo.
- nos elementos da frase com a mesma função sintáctica não ligados por e, ou e nem:
. Compõem a escola professores, alunos, pessoal administrativo, de apoio e auxiliar;
. Os cuidados a ter com a gripe foram recomendados a alunos, professores, pais e ao restante pessoal da escola;
. Não quis dar a notícia da sua doença aos pais, aos irmãos, aos amigos nem aos colegas;
- nos advérbios, quando intercalados na frase:
. A razão estava, indubitavelmente, do lado dos trabalhadores, embora a Administração, insistentemente, falasse em alterar o horário de trabalho;
- nos pronomes que e quem antecedidos de preposição:
. Se o emprego do hífen, de que tratámos recentemente, é complicado, o da vírgula, a que agora nos dedicamos, também tem as suas dificuldades. Neste caso, devemos seguir os bons autores, em quem podemos colher os melhores exemplos, a quem devemos prestar atenção;
- quando as conjunções e, ou, nem surgem repetidas:
. Nem eu, nem tu, nem ele, nem qualquer outra pessoa poderia fazer mais;
- nos advérbios enfim, talvez, nas conjunções porém, contudo, todavia, pois, e nas expressões em minha opinião, além disso, isto é, ou seja, por exemplo, entre outras:
. Na aula, o professor disse aos alunos que os seus trabalhos estavam fracos, contudo (todavia), havia dois ou três que mostravam, enfim, o domínio da matéria. Acrescentou que, a seu ver, seria, talvez, conveniente voltar a insistir nos pontos fulcrais. A aula seguinte seria, pois, destinada a esse fim, ou seja, a repisar a matéria.
Era necessário, porém, que todos se esforçassem por estarem atentos e, além disso, apresentassem as suas dificuldades.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (14) J. Soares / Jornal "O Dever" / 21.01.010.A pontuação funciona como auxiliar da compreensão dum texto escrito. Dentre os sinais de pontuação sobressai a vírgula. Ela é tão importante que o comum dos utentes da língua se refere à pontuação como o acto de «pôr as vírgulas».
Vamos então tentar adquirir ideias precisas sobre o emprego da vírgula. Esta tem duas finalidades: facilitar a inteligibilidade do texto e valorizar a entoação do mesmo, através de pausas, quando lido em voz alta. Mas registe-se desde já que não há uma maneira única de virgular um texto. Se dermos a duas pessoas, ambas entendidas na matéria, o mesmo texto sem vírgulas, verificaremos que não coincidirão no emprego da vírgula (e noutros sinais de pontuação). Portanto, o emprego da vírgula varia de autor para autor: enquanto uns exageram no seu uso, outros reduzem-no ao estritamente necessário. Há, contudo, algumas regras comuns a uns e outros. A vírgula emprega-se:
- quando se chama alguém (vocativo):
. Maria, chega aqui ao pé de mim;
- em frases com aposto:
. O Manuel, o mais novo dos irmãos, chamou a Maria;
- nas orações coordenadas (copulativas sem a conjunção e, adversativas, disjuntivas, conclusivas, explicativas):
. No Inverno chove, neva, faz frio. Ou a neve cai, ou o chão se cobre de gelo e geada. O frio aperta, portanto, no campo, a família reúne-se à volta da lareira. Esta época, segundo afirmam alguns, era o período das férias da gente do campo.
- nos elementos da frase com a mesma função sintáctica não ligados por e, ou e nem:
. Compõem a escola professores, alunos, pessoal administrativo, de apoio e auxiliar;
. Os cuidados a ter com a gripe foram recomendados a alunos, professores, pais e ao restante pessoal da escola;
. Não quis dar a notícia da sua doença aos pais, aos irmãos, aos amigos nem aos colegas;
- nos advérbios, quando intercalados na frase:
. A razão estava, indubitavelmente, do lado dos trabalhadores, embora a Administração, insistentemente, falasse em alterar o horário de trabalho;
- nos pronomes que e quem antecedidos de preposição:
. Se o emprego do hífen, de que tratámos recentemente, é complicado, o da vírgula, a que agora nos dedicamos, também tem as suas dificuldades. Neste caso, devemos seguir os bons autores, em quem podemos colher os melhores exemplos, a quem devemos prestar atenção;
- quando as conjunções e, ou, nem surgem repetidas:
. Nem eu, nem tu, nem ele, nem qualquer outra pessoa poderia fazer mais;
- nos advérbios enfim, talvez, nas conjunções porém, contudo, todavia, pois, e nas expressões em minha opinião, além disso, isto é, ou seja, por exemplo, entre outras:
. Na aula, o professor disse aos alunos que os seus trabalhos estavam fracos, contudo (todavia), havia dois ou três que mostravam, enfim, o domínio da matéria. Acrescentou que, a seu ver, seria, talvez, conveniente voltar a insistir nos pontos fulcrais. A aula seguinte seria, pois, destinada a esse fim, ou seja, a repisar a matéria.
Era necessário, porém, que todos se esforçassem por estarem atentos e, além disso, apresentassem as suas dificuldades.
------------------------------
O hífen e a translineação
O hífen e a translineação
Antes de tratarmos do emprego do hífen na translineação, convém chamar a atenção para as alterações introduzidas pelo novo Acordo Ortográfico no caso dos compostos por prefixos. O hífen mantém-se em todas as palavras compostas cujo segundo elemento começa por h: anti-herói, extra-humano, pré-história, super-homem, mal-humorado, etc., mas muitas palavras que eram justapostas, passam a aglutinadas nas situações seguintes:
- quando o primeiro elemento terminado por vogal (auto -, supra -, infra -, co -) se junta a outro começado também por vogal. Assim, auto-avaliação passa a autoavaliação, supra-estrutura a supraestrutura, infra-estrutura a infraestrutura, co-autor a coautor;
- quando ao primeiro elemento terminado por vogal se juntam outras começados por r ou s, passando estas letras a ser dobradas. Assim, neo-realismo passa a neorrealismo, semi-recta passa a semirreta, auto-retrato a autorretrato, contra-senso a contrassenso, semi-selvagem a semisselvagem.
Para além destas, há situações específicas:
- no caso de arqui -, o hífen continua a manter-se diante de i: arqui-irmandade;
- no caso de supra, continua a haver justaposição em supra-axilar.
Certamente nestas situações o hífen tenha como justificação o facto de a vogal se repetir.
Em síntese, tornou-se ainda mais difícil ao utente da língua saber quando é que deve empregar ou suprimir o hífen. Em meu entender foi «pior a emenda que o soneto».
Posto isto, passemos à translineação, que, no fim de contas, é a partição de uma palavra. Esta partição em princípio obedece à divisão silábica: má–xi–mo, ó–xi –do, má–qui–na, ci–da–de.
A questão surge quando numa palavra há duas consoantes seguidas, uma consoante geminada (mm, nn, rr, ss) ou um dígrafo (ch, lh, nh).
As normas para estas situações são:
- Não se separam:
. os grupos de duas consoantes em que a primeira é b, c, f, g, p, t, v e a segunda é l ou r: bi-blioteca, co-brir; a-clarar, a-creditar; re-flectir, a-fricano; a-glomerado, a-gricultura; a-plicar, re-preender; a-tleta, a-tracção; li-vraria;
. grupos com dígrafo (ch, lh, nh): bi-cho, bi-lhete, rai-nha;
. os ditongos: ai-roso, pa-péis, arca-boi-ço, cau-teloso, cha-péu, pe-diu, lou-vor.
. os grupos gu e qu em que o u é seguido de vogal: á-gua, averi-guar, ade-quar, longín-quo, pe-guei, pe-quei, reguen-go, reque-rer.
- Separam-se:
. os grupos de duas consoantes diferentes:
bd: ab-dicar; bm: sub-meter; bs:ab-soluto; bv: ób-vio;
cç: ac-ção; cn: ac-ne; ct: fac-to; cm: drac-ma;
dj: ad-jectivo; dm: ad-mirável;
ft: af-ta;
gd: amig-dalite; gm: diafrag-ma;
pç: adop-ção;
pt: adop-tar;
sc: des-cer;
tm: rit-mo; tn: ét-nico.
. os grupos de consoantes geminadas: comum-mente, con-nosco, ter-reno, pas-sado.
Nos casos de palavras compostas por justaposição, se a linha termina por hífen, este é repetido no início da linha seguinte: guarda- / -chuva, mão- / -de-obra.
Nos outros casos de encontro de duas consoantes, a translineação obedece, logicamente, à divisão silábica: al-tura, al-vitrar, ar-mada, arneiro, ár-vore, des-fazer, des-leal, des-temido, etc.
Há ainda situações de grupos de mais de duas consoantes em palavras como cam-braia, ec-lipse, antárc-tico, sols-tício e muitas outras mas tentar deslindar essa meada contribuiria mais para confundir do que esclarecer os espíritos, por isso nos detemos por aqui.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (13) J. Soares / Jornal "O Dever" / 14.01.010.
- quando o primeiro elemento terminado por vogal (auto -, supra -, infra -, co -) se junta a outro começado também por vogal. Assim, auto-avaliação passa a autoavaliação, supra-estrutura a supraestrutura, infra-estrutura a infraestrutura, co-autor a coautor;
- quando ao primeiro elemento terminado por vogal se juntam outras começados por r ou s, passando estas letras a ser dobradas. Assim, neo-realismo passa a neorrealismo, semi-recta passa a semirreta, auto-retrato a autorretrato, contra-senso a contrassenso, semi-selvagem a semisselvagem.
Para além destas, há situações específicas:
- no caso de arqui -, o hífen continua a manter-se diante de i: arqui-irmandade;
- no caso de supra, continua a haver justaposição em supra-axilar.
Certamente nestas situações o hífen tenha como justificação o facto de a vogal se repetir.
Em síntese, tornou-se ainda mais difícil ao utente da língua saber quando é que deve empregar ou suprimir o hífen. Em meu entender foi «pior a emenda que o soneto».
Posto isto, passemos à translineação, que, no fim de contas, é a partição de uma palavra. Esta partição em princípio obedece à divisão silábica: má–xi–mo, ó–xi –do, má–qui–na, ci–da–de.
A questão surge quando numa palavra há duas consoantes seguidas, uma consoante geminada (mm, nn, rr, ss) ou um dígrafo (ch, lh, nh).
As normas para estas situações são:
- Não se separam:
. os grupos de duas consoantes em que a primeira é b, c, f, g, p, t, v e a segunda é l ou r: bi-blioteca, co-brir; a-clarar, a-creditar; re-flectir, a-fricano; a-glomerado, a-gricultura; a-plicar, re-preender; a-tleta, a-tracção; li-vraria;
. grupos com dígrafo (ch, lh, nh): bi-cho, bi-lhete, rai-nha;
. os ditongos: ai-roso, pa-péis, arca-boi-ço, cau-teloso, cha-péu, pe-diu, lou-vor.
. os grupos gu e qu em que o u é seguido de vogal: á-gua, averi-guar, ade-quar, longín-quo, pe-guei, pe-quei, reguen-go, reque-rer.
- Separam-se:
. os grupos de duas consoantes diferentes:
bd: ab-dicar; bm: sub-meter; bs:ab-soluto; bv: ób-vio;
cç: ac-ção; cn: ac-ne; ct: fac-to; cm: drac-ma;
dj: ad-jectivo; dm: ad-mirável;
ft: af-ta;
gd: amig-dalite; gm: diafrag-ma;
pç: adop-ção;
pt: adop-tar;
sc: des-cer;
tm: rit-mo; tn: ét-nico.
. os grupos de consoantes geminadas: comum-mente, con-nosco, ter-reno, pas-sado.
Nos casos de palavras compostas por justaposição, se a linha termina por hífen, este é repetido no início da linha seguinte: guarda- / -chuva, mão- / -de-obra.
Nos outros casos de encontro de duas consoantes, a translineação obedece, logicamente, à divisão silábica: al-tura, al-vitrar, ar-mada, arneiro, ár-vore, des-fazer, des-leal, des-temido, etc.
Há ainda situações de grupos de mais de duas consoantes em palavras como cam-braia, ec-lipse, antárc-tico, sols-tício e muitas outras mas tentar deslindar essa meada contribuiria mais para confundir do que esclarecer os espíritos, por isso nos detemos por aqui.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (13) J. Soares / Jornal "O Dever" / 14.01.010.
----------------------------------
O emprego do hífen
O hífen (-) é o sinal gráfico que se emprega quer para unir quer para dividir palavras.
No primeiro caso, une palavras compostas por justaposição; no segundo, serve para fazer a translineação, ou seja, a passagem duma linha para a linha seguinte de uma palavra que não coube na linha anterior.
No tratamento das palavras compostas por justaposição, vamos limit
- em dois nomes ligados pela preposição de, e nos nomes próprios ligados pelo artigo definido: brincos-de-princesa; Montemor-o-Velho, Idanha-a-Nova;
- em compostos por dois adjectivos, um adjectivo e um nome ou um nome e um adjectivo: azul-escuro; primeiro-ministro; amor-perfeito;
- em compostos por uma forma verbal e um nome ou por duas formas verbais: quebra-nozes; puxa-puxa;
- em combinações de palavras com um sentido preciso: bem-me-quer.
Mas em malmequer já só há aglutinação;
- em nomes gentílicos: cabo-verdiano, vila-realense (de Vila Real);
- nas formas monossilábicas do verbo haver seguidas da preposição de:
hei-de, hás-de, hão-de;
- na conjugação pronominal: vejo-o; digo-te; dizemos-lhes; ouviram-nos; disseram-vos; disseram-no-lo. No futuro e condicional, o pronome aparece intercalado: dir-lhe-ei; fá-lo-ia;
- em algumas locuções: ao deus-dará, à queima-roupa;
- em compostos, cujo primeiro elemento é acentuado (pré -, pró -, aquém, -, além -, recém - ): pré-reforma, pró-germânico, aquém-fronteiras, além túmulo, recém-nascido;
- em compostos cujo primeiro elemento é auto -, contra -, infra -, neo -, proto -, pseudo -, supra -, ultra -, antes de vogal, h, r, ou s: auto-avaliação, contra-almirante, infra-som, neo-realismo, proto-história, pseudo-apendicite, supra-renal, ultra-som;
- em compostos por bem, mal, pan -, antes de vogal ou h: bem-aventurado, mal-humorado, pan-helenismo;
- em
- em compostos por anti -, semi – antes de h, i, r, s: anti-herói, anti-roubo, anti-infeccioso, semi-inconsciente, semi-roto, semi-selvagem; semi-recta;
- em compostos por sobre antes de h: sobre-humano;
- em compostos por sub antes de h e r: sub-hepático (abaixo do fígado), sub-região, sub-reptício;
- em compostos por ex com o sentido de estado anterior: ex-aluno, ex-marido.
- em compostos por co – com o sentido de a par: co-autor, co-responsável;
- em compostos por vice – quando o segundo elemento é autónomo: vice-rei, vice-chefe, vice-reitor.
O hífen emprega-se ainda para indicar datas ou períodos de tempo: 26-11-2009; 2008-9; séculos XV – XVI; década de 80 - 90.
O novo Acordo Ortográfico introduz alterações nesta matéria, mas disso trataremos na próxima crónica, bem como da translineação.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (12) J. Soares / Jornal "O Dever" / 07.01.010.
----------------------------
O mesmo som com grafias diferente:
j e g; ch e x; e e rr
j e g; ch e x; e e rr
Decerto já pusemos muitas vezes a nós próprios ou a outrem esta questão: porque é que pajem se escreve com j e vagem com g? Porque é que machado se escreve com ch e enxada se escreve com x? Porque é que caderno se escreve com r e corrente com rr?
Como nas situações analisadas nos trabalhos anteriores, pouco ou nada adianta responder que umas palavras provieram do latim e outras de línguas diferentes. Portanto, a verdadeira questão não é saber porque é que se escreve desta ou daquela maneira mas sim saber que se escreve assim e não de outra maneira. e isso só se consegue motivando o discento para a prática da escrita, apoiada pela observação atenta. Este procedimento é que alicerça a memória visual, que é a base da
grafia correcta, a ortografia.
Com a grafia em j temos palavras como jeito (e derivados ajeitar, trejeito, enjeitar, desajeitar), jeira, jornal, laje, lajedo, laranjeira, lisonja, majestade, granjear, rijeza, sabrijice.
Quanto às palavras com a grafia g, em número bastante elevado, temos, por exemplo, Eugénio, género, gelo, gesso, algibeira, girafa, girassol, gíria, tangerina, virgem, mensagem, viagem, gesto.
Importa salientar que g só tem o mesmo som de j quando precede as vogais e ou i.
A etimologia oferece explicação para a grafia de algumas palavras.
Assim, o j derivou de i ou di: iuvenem>jovem; hodie>hoje. De igual modo, o g derivou de g: virginem>virgem. Outras como gigante ou ginásio provieram do grupo do grego; girafa, algibeira vieram do árabe; de gíria não se conhece a origem.
A maioria das palavras com ch provém de palavras latinas grafadas com cl, pl ou fl. Assim de chamare temos chamar, de plorare temos chorar e de inflare temos inchar. Mas já achaque como chafariz são de origem árabe e chá e chávena provêm das línguas orientais.
Tanto no início de palavras como no seu interior a grafia em ch é mais frequente que a grafia em x. Para esta temos, em posição inicial, palavras como xícara, xaile, xadrez, xerife, xarope, xávega, xeque, xiita, xisto, xilofone, cuja fonte é o árabe ou o grego. Em posição interior temos, por exemplo, enxame, enxugar, enxada, enxerga, oxalá, intoxicar, paixão. Nesta situação, umas são de origem latina, outras, em número reduzido, como oxalá, provêm do árabe.
Por último, passemos à grafia com r e – rr-. R e rr têm um comportamento semelhante ao de s e ss. No interior de palavras só tem o mesmo som do início quando está nas posições seguintes:
- diante ou depois de l: Arlindo, perlífero, bilro, melro;
- diante ou depois de n: terno, inverno, tenro, Tenreiro;
Na mesma posição, quando está entre vogais tem de ser dobrado para ter o mesmo som: arrastar, arredor, arreio, arrotear, arrojo, arrimo, arrumo.
Nas palavras compostas por justaposição, a palavra iniciada por r continua com a mesma pronúncia: inter-relação, super-requintado. Mas se as duas palavras passam a aglutinar-se então já o r tem de ser geminado: infrarrenal, suprarrenal.
Se a grafia do r e do s é complicada, a sua pronúncia também não é isenta de dificuldades, facto patente na diversidade da pronúncia do s dentro da nossa comunidade linguística e quando ouvimos os estrangeiros a falarem português. As dificuldades que sentem na pronúncia de s e r são sinais marcantes de que se exprimem numa língua diferente da do seu berço.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (11) J. Soares / Jornal "O Dever" / 24.Dez.009.Como nas situações analisadas nos trabalhos anteriores, pouco ou nada adianta responder que umas palavras provieram do latim e outras de línguas diferentes. Portanto, a verdadeira questão não é saber porque é que se escreve desta ou daquela maneira mas sim saber que se escreve assim e não de outra maneira. e isso só se consegue motivando o discento para a prática da escrita, apoiada pela observação atenta. Este procedimento é que alicerça a memória visual, que é a base da
grafia correcta, a ortografia.Com a grafia em j temos palavras como jeito (e derivados ajeitar, trejeito, enjeitar, desajeitar), jeira, jornal, laje, lajedo, laranjeira, lisonja, majestade, granjear, rijeza, sabrijice.
Quanto às palavras com a grafia g, em número bastante elevado, temos, por exemplo, Eugénio, género, gelo, gesso, algibeira, girafa, girassol, gíria, tangerina, virgem, mensagem, viagem, gesto.
Importa salientar que g só tem o mesmo som de j quando precede as vogais e ou i.
A etimologia oferece explicação para a grafia de algumas palavras.
Assim, o j derivou de i ou di: iuvenem>jovem; hodie>hoje. De igual modo, o g derivou de g: virginem>virgem. Outras como gigante ou ginásio provieram do grupo do grego; girafa, algibeira vieram do árabe; de gíria não se conhece a origem.
A maioria das palavras com ch provém de palavras latinas grafadas com cl, pl ou fl. Assim de chamare temos chamar, de plorare temos chorar e de inflare temos inchar. Mas já achaque como chafariz são de origem árabe e chá e chávena provêm das línguas orientais.
Tanto no início de palavras como no seu interior a grafia em ch é mais frequente que a grafia em x. Para esta temos, em posição inicial, palavras como xícara, xaile, xadrez, xerife, xarope, xávega, xeque, xiita, xisto, xilofone, cuja fonte é o árabe ou o grego. Em posição interior temos, por exemplo, enxame, enxugar, enxada, enxerga, oxalá, intoxicar, paixão. Nesta situação, umas são de origem latina, outras, em número reduzido, como oxalá, provêm do árabe.
Por último, passemos à grafia com r e – rr-. R e rr têm um comportamento semelhante ao de s e ss. No interior de palavras só tem o mesmo som do início quando está nas posições seguintes:
- diante ou depois de l: Arlindo, perlífero, bilro, melro;
- diante ou depois de n: terno, inverno, tenro, Tenreiro;
Na mesma posição, quando está entre vogais tem de ser dobrado para ter o mesmo som: arrastar, arredor, arreio, arrotear, arrojo, arrimo, arrumo.
Nas palavras compostas por justaposição, a palavra iniciada por r continua com a mesma pronúncia: inter-relação, super-requintado. Mas se as duas palavras passam a aglutinar-se então já o r tem de ser geminado: infrarrenal, suprarrenal.
Se a grafia do r e do s é complicada, a sua pronúncia também não é isenta de dificuldades, facto patente na diversidade da pronúncia do s dentro da nossa comunidade linguística e quando ouvimos os estrangeiros a falarem português. As dificuldades que sentem na pronúncia de s e r são sinais marcantes de que se exprimem numa língua diferente da do seu berço.
-----------------------------------
O mesmo som com grafias diferente:
s, z, e x.
s, z, e x.
Tanto em palavras simples como derivadas o som z pode ser representado por três letras diferentes:
- s: casa, casita, casinha, caso, riso, ocaso, ocasionar, ocasião, mesa, camisa, camisinha, rosa, rosinha, coisinha;
- z: azo, azar, prazo, aprazar, prazer, prazenteiro, pobrezinho, rapazinho;
- x: exam
e, examinar, exacto (exato), exactidão (exatidão), exagero, exaustão, exaustivo.
Das palavras simples escritas com s derivam outras com o sufixo – inho (a): risinho, casinha, mesinha, camisinha, portuguesinho, inglesinho, princesinha.
Do mesmo modo, das palavras simples escritas com z derivam outras com o sufixo – zinho (a), mas a esmagadora maioria destas palavras acrescenta o z a – inho (a). Assim, temos rapazinho, de rapaz, mas mauzinho de mau, pobrezinho de pobre, sozinho de só, principezinho de príncipe, etc., etc..
Os sufixos – inho (a) e – zinho (a) são referidos nas gramáticas como diminuitivos, isto é, têm a significação concreta de pequenez, diminuição. No meu parecer, em muitas palavras com estes sufixos conta mais a conotação apreciativa ou depreciativa do que o aspecto físico. Imaginemos uma pessoa que vive numa espaçosa e bela vivenda e a deixou por alguns dias para um passeio turístico. A sua reacção para um companheiro de viagem foi:
- Isto por aqui é muito bonito, mas já começo a ter saudades da minha casinha… Ora o que conta em casinha não é a sua pequenez (ela até é grande!) mas o afecto que se mostra por ela. Numa frase como «a menina abria a boca num risinho que lhe embelezava a face», o sufixo tem conotação valorativa, mas já numa frase como «a rapariga exibia um risinho amarelo de desdém», o sufixo tem uma carga irónica de depreciação. Palavras como amiguinho, filhinho, mocinho, meiguinho, princezinha, rapazinho reflectem sobretudo a afectividade de quem as emprega.
As terminações em – isar e – izar são próprias de verbos. Se o verbo se formou de um nome com s, a terminação é em – isar, ou seja, o sufixo é – ar: analisar de analise; avisar de aviso; precisar de preciso; paralisar de paralise; pesquisar de pesquisa. Se o verbo se formou dum nome com ou sem z o sufixo é – izar. Assim, de juiz derivou ajuizar, de útil utilizar, de fértil fertilizar, de capital capitalizar, de deslize deslizar, de concreto concretizar, de hostil hostilizar, de actual actualizar, etc., etc. São muitos os verbos com o sufixo – izar.
Passemos agora ao particípio passado ou adjectivo verbal dos verbos em – isar e – izar. Os primeiros terminam em – isado: analisado, avisado, precisado, paralisado, pesquisado. Logicamente, os segundos terminam em – izado: ajuizado, utilizado, fertilizado, capitalizado, deslizado, concretizado, hostilizado, actualizado.
Resta tratar dos verbos em – sir e – zir. Na mesma ordem de ideias, um verbo com transir faz no particípio passado transido, enquanto os verbos em – zir fazem o particípio em – zido: franzido de franzir, aduzido de aduzir, traduzido de traduzir. Mas os particípios em – sido e – zido são raros. O particípio passado em – izado é de longe o mais frequente.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (10) J. Soares / Jornal "O Dever" / 17.Dez.009.- s: casa, casita, casinha, caso, riso, ocaso, ocasionar, ocasião, mesa, camisa, camisinha, rosa, rosinha, coisinha;
- z: azo, azar, prazo, aprazar, prazer, prazenteiro, pobrezinho, rapazinho;
- x: exam
Das palavras simples escritas com s derivam outras com o sufixo – inho (a): risinho, casinha, mesinha, camisinha, portuguesinho, inglesinho, princesinha.
Do mesmo modo, das palavras simples escritas com z derivam outras com o sufixo – zinho (a), mas a esmagadora maioria destas palavras acrescenta o z a – inho (a). Assim, temos rapazinho, de rapaz, mas mauzinho de mau, pobrezinho de pobre, sozinho de só, principezinho de príncipe, etc., etc..
Os sufixos – inho (a) e – zinho (a) são referidos nas gramáticas como diminuitivos, isto é, têm a significação concreta de pequenez, diminuição. No meu parecer, em muitas palavras com estes sufixos conta mais a conotação apreciativa ou depreciativa do que o aspecto físico. Imaginemos uma pessoa que vive numa espaçosa e bela vivenda e a deixou por alguns dias para um passeio turístico. A sua reacção para um companheiro de viagem foi:
- Isto por aqui é muito bonito, mas já começo a ter saudades da minha casinha… Ora o que conta em casinha não é a sua pequenez (ela até é grande!) mas o afecto que se mostra por ela. Numa frase como «a menina abria a boca num risinho que lhe embelezava a face», o sufixo tem conotação valorativa, mas já numa frase como «a rapariga exibia um risinho amarelo de desdém», o sufixo tem uma carga irónica de depreciação. Palavras como amiguinho, filhinho, mocinho, meiguinho, princezinha, rapazinho reflectem sobretudo a afectividade de quem as emprega.
As terminações em – isar e – izar são próprias de verbos. Se o verbo se formou de um nome com s, a terminação é em – isar, ou seja, o sufixo é – ar: analisar de analise; avisar de aviso; precisar de preciso; paralisar de paralise; pesquisar de pesquisa. Se o verbo se formou dum nome com ou sem z o sufixo é – izar. Assim, de juiz derivou ajuizar, de útil utilizar, de fértil fertilizar, de capital capitalizar, de deslize deslizar, de concreto concretizar, de hostil hostilizar, de actual actualizar, etc., etc. São muitos os verbos com o sufixo – izar.
Passemos agora ao particípio passado ou adjectivo verbal dos verbos em – isar e – izar. Os primeiros terminam em – isado: analisado, avisado, precisado, paralisado, pesquisado. Logicamente, os segundos terminam em – izado: ajuizado, utilizado, fertilizado, capitalizado, deslizado, concretizado, hostilizado, actualizado.
Resta tratar dos verbos em – sir e – zir. Na mesma ordem de ideias, um verbo com transir faz no particípio passado transido, enquanto os verbos em – zir fazem o particípio em – zido: franzido de franzir, aduzido de aduzir, traduzido de traduzir. Mas os particípios em – sido e – zido são raros. O particípio passado em – izado é de longe o mais frequente.
------------------------------------
O mesmo som com grafia diferente:
s, ss, c, ç e x; cç, cc e x.
s, ss, c, ç e x; cç, cc e x.
Pela nossa própria experiência, todos temos a consciência de que a aprendizagem da ortografia é uma tarefa difícil, tantas são as representações do mesmo som.
Vamos tratar da representação do som da sibilante surda s, em oposição à sibilante sonora z de que falámos na crónica anterior.
O som da sibilante surda s tem as seguintes representações:
- s, em início de palavra: saber, som, sono, sono, sumo, sério, sítio;
- s, no inter
ior de palavra depois de b, l, n, r: absinto, abside, absoluto, falso, absaciano, anseio, pensão, ensino, arsénico, arsenal;
- ss (consoante dupla ou geminada) no interior de palavra nas situações diferentes da referida no ponto anterior: assar, assédio, asseio, assíduo, osso, assim, assumir, assunto, associação;
- c, tanto em início como no interior de palavra diante de e ou i:
. cedo, ceder, cinto, cimo;
. encetar, incêndio, incentivo, acima, acinte;
- ç (c de cedilha) no interior de palavra diante de a, o, e u: açaime, açafrão, açorda, Açores, açoteia, açude, açúcar, açucena.
A grafia com s, ss e c na maior parte das palavras tem a ver com a etimologia: sonum>som, passum>passo; cedere>ceder. Quanto às palavras em ç, a maioria é de origem árabe.
- x no interior de palavra: próximo, máximo, auxílio, reflexão. Neste caso a pronúncia resulta da simplificação do som inicial que era ks.
Passemos à representação do som duplo ks. Esta pode ser feita por:
- cç: dicção, fricção, convicção, secção, fracção;
- cc: occipital;
- x, tanto no interior como no final de palavra; fixar, prefixo, sufixo, crucifixo, anexo, sexo, convexo, flexão, sílex, tórax, ónix.
A razão das grafias em cç e cc está no facto de estas palavras terem origem em palavras latinas com a grafia em – ct – ou – cc -: dictionem>dicção; occipite>occipital. Nas palavras com grafia em x mantém-se a da língua-mãe: fixum>fixo.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (09) J. Soares / Jornal "O Dever" / 10.Dez.009.Vamos tratar da representação do som da sibilante surda s, em oposição à sibilante sonora z de que falámos na crónica anterior.
O som da sibilante surda s tem as seguintes representações:
- s, em início de palavra: saber, som, sono, sono, sumo, sério, sítio;
- s, no inter
ior de palavra depois de b, l, n, r: absinto, abside, absoluto, falso, absaciano, anseio, pensão, ensino, arsénico, arsenal;- ss (consoante dupla ou geminada) no interior de palavra nas situações diferentes da referida no ponto anterior: assar, assédio, asseio, assíduo, osso, assim, assumir, assunto, associação;
- c, tanto em início como no interior de palavra diante de e ou i:
. cedo, ceder, cinto, cimo;
. encetar, incêndio, incentivo, acima, acinte;
- ç (c de cedilha) no interior de palavra diante de a, o, e u: açaime, açafrão, açorda, Açores, açoteia, açude, açúcar, açucena.
A grafia com s, ss e c na maior parte das palavras tem a ver com a etimologia: sonum>som, passum>passo; cedere>ceder. Quanto às palavras em ç, a maioria é de origem árabe.
- x no interior de palavra: próximo, máximo, auxílio, reflexão. Neste caso a pronúncia resulta da simplificação do som inicial que era ks.
Passemos à representação do som duplo ks. Esta pode ser feita por:
- cç: dicção, fricção, convicção, secção, fracção;
- cc: occipital;
- x, tanto no interior como no final de palavra; fixar, prefixo, sufixo, crucifixo, anexo, sexo, convexo, flexão, sílex, tórax, ónix.
A razão das grafias em cç e cc está no facto de estas palavras terem origem em palavras latinas com a grafia em – ct – ou – cc -: dictionem>dicção; occipite>occipital. Nas palavras com grafia em x mantém-se a da língua-mãe: fixum>fixo.
---------------------------------------
Palavras terminadas em
s e z;
-cão, -ssão e -são
s e z;
-cão, -ssão e -são
Há um número muito vasto de palavras de todas as classes gramaticais em que o mesmo som é representado por letras diferentes: s ou z.
Passemos em revista alguns exemplos:
com a vogal aberta a: gás, lilás, pás, trás, mas: Vaz, fugaz, paz, rapaz, audaz;
com a vogal e aberta: pés, rés, sés, mas: dez;
com a vogal e média: vês, dês, rês, montês, maltês, português, mas: vez, fez, talvez, jaez, sensatez, altivez, pacatez, validez, viuvez;
com a vogal i: anis, perfis, ouvis, cantis, ris, ardis, subtis, funis, juvenis, mas: aprendiz, matiz, matriz, motriz, perdiz, almofariz, chafariz;
com a
vogal o aberta: vós, pós, sós, após, retrós, nós, mas: voz, nos, foz, feroz, atroz, veloz;
com a vogal o média: pôs, compôs, impôs, mas: arroz, algoz.
com a vogal u: pus, compus, impus, mas: luz, truz, alcatruz, capuz, conduz, traduz.
Deste conjunto é oportuno perguntar a que regras nos devemos arrimar para saber se uma determinada palavra se escreve com s ou com z. O recurso à etimologia, ou seja, à língua-mãe, seria uma boa ajuda, mas isto de saber um pouco de latim já foi chão que deu uvas… Actualmente os únicos meios válidos parecem-me ser a observação cuidada logo no início da aprendizagem da escrita, bem como o recurso à memória visual. Ainda assim, há para esta grande diversidade alguns princípios que poderão ter a sua utilidade.
Assim:
1. Terminam em – ês, substantivos e adjectivos derivados de substantivos:
turquês, marquês, francês, maltês, burguês, camponês;
2. Terminam em – ez muitos substantivos abstractos derivados de adjectivos:
. em - az: fugaz, audaz, voraz;
. em - ez: altivez, cupidez, rigidez;
3. Terminam em – oz alguns adjectivos: feroz, veloz, atroz.
4. Os advérbios e preposições são escritos nuns casos com s, noutros com z: atrás, após, trás, através, mas; assaz, talvez. O mesmo sucede com as formas verbais: dás, dês, pôs, pedis, mas: apraz, diz, conduz.
Também no caso das palavras terminadas em –ção, -ssão e –são o conhecimento da sua origem seria um precioso auxiliar para resolver dúvidas quanto à
sua grafia. A maioria destas palavras termina em -ção (do latim-tionem): atenção, afeição, acção (ação), adopção (adoção), canção, citação, condição, condução, conceição, correcção (correção), descrição, devoção, distinção, recepção (receção), representação, etc., etc..
Outro conjunto menos numeroso termina em – ssão (do latim – ssionem): admissão, demissão, digressão, expressão, missão, omissão, permissão, profissão, remissão, sucessão, etc.
Um número mais restrito termina em – são (do latim – sionem): apreensão, aversão, conversão, dimensão, extensão, pretensão, tensão, versão.
Também nestas situações são fulcrais, no início da aprendizagem, a observação cuidada, a memória visual, e depois a repetição do exercício com vista a dissipar dúvidas em quem aprende sobre a grafia correcta.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (08) J. Soares / Jornal "O Dever" / 03.Dez.009.
Passemos em revista alguns exemplos:
com a vogal aberta a: gás, lilás, pás, trás, mas: Vaz, fugaz, paz, rapaz, audaz;
com a vogal e aberta: pés, rés, sés, mas: dez;
com a vogal e média: vês, dês, rês, montês, maltês, português, mas: vez, fez, talvez, jaez, sensatez, altivez, pacatez, validez, viuvez;
com a vogal i: anis, perfis, ouvis, cantis, ris, ardis, subtis, funis, juvenis, mas: aprendiz, matiz, matriz, motriz, perdiz, almofariz, chafariz;
com a
com a vogal o média: pôs, compôs, impôs, mas: arroz, algoz.
com a vogal u: pus, compus, impus, mas: luz, truz, alcatruz, capuz, conduz, traduz.
Deste conjunto é oportuno perguntar a que regras nos devemos arrimar para saber se uma determinada palavra se escreve com s ou com z. O recurso à etimologia, ou seja, à língua-mãe, seria uma boa ajuda, mas isto de saber um pouco de latim já foi chão que deu uvas… Actualmente os únicos meios válidos parecem-me ser a observação cuidada logo no início da aprendizagem da escrita, bem como o recurso à memória visual. Ainda assim, há para esta grande diversidade alguns princípios que poderão ter a sua utilidade.
Assim:
1. Terminam em – ês, substantivos e adjectivos derivados de substantivos:
turquês, marquês, francês, maltês, burguês, camponês;
2. Terminam em – ez muitos substantivos abstractos derivados de adjectivos:
. em - az: fugaz, audaz, voraz;
. em - ez: altivez, cupidez, rigidez;
3. Terminam em – oz alguns adjectivos: feroz, veloz, atroz.
4. Os advérbios e preposições são escritos nuns casos com s, noutros com z: atrás, após, trás, através, mas; assaz, talvez. O mesmo sucede com as formas verbais: dás, dês, pôs, pedis, mas: apraz, diz, conduz.
Também no caso das palavras terminadas em –ção, -ssão e –são o conhecimento da sua origem seria um precioso auxiliar para resolver dúvidas quanto à
Outro conjunto menos numeroso termina em – ssão (do latim – ssionem): admissão, demissão, digressão, expressão, missão, omissão, permissão, profissão, remissão, sucessão, etc.
Um número mais restrito termina em – são (do latim – sionem): apreensão, aversão, conversão, dimensão, extensão, pretensão, tensão, versão.
Também nestas situações são fulcrais, no início da aprendizagem, a observação cuidada, a memória visual, e depois a repetição do exercício com vista a dissipar dúvidas em quem aprende sobre a grafia correcta.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (08) J. Soares / Jornal "O Dever" / 03.Dez.009.
----------------------------------------
Em dia de aniversário
algumas considerações sobre
O DEVER.
algumas considerações sobre
O DEVER.
Em rodapé da 1.ª página surge a expressão «semanário regional de informação e cultura». E está correcta a caracterização de semanário porque vem à luz uma vez por semana. Seria quinzenário se fosse publicado de quinze em quinze dias; mensário se aparecesse uma vez por mês e anuário se surgisse só uma vez por ano.
Reportando-nos à etimologia, O DEVER só poderia considerar-se um jornal se fosse publicado diariamente. E porquê?
A palavra jornal, derivada do latim diurnale -, que por sua vez provém de die -, chegou-nos através do francês journal, derivado de jour, dia.
À família de jornal pertencem palavras como diurno, diuturno, diuturnidade, jorna, jornaleiro, jornada, jornadear, jornalismo e jornalista. A estas palavras subjaz o conceito de dia. Assim:
. jornal é uma publicação diária;
. diurno é o que se faz ou sucede num dia ou durante o dia;
. jorna é o salário diário de um trabalhador rural;
. jornaleiro é o que anda à jorna, o que recebe um salário diário.
Com o decurso do tempo e o uso, o conceito de dia numas palavras expandiu-se, noutras desvaneceu-se. Expandiu-se em diuturno, diuturnidade, jornada, jornardear e extinguiu-se em jornalismo, jornalista. A evolução de sentido operada levou à perda da noção do sentido inicial. Assim:
. diuturno aplica-se ao que tem longa duração, sentido que já tinha no latim;
. diuturnidade designa um período de tempo que conferia ao funcionalismo o direito a um suplemento no vencimento;
. jornada é não só «a caminhada feita num dia», mas também uma viagem, empreendimento ou expedição mais ou menos duradoira com objectivos diversos. A expedição de D. Sebastião a Alcácer-Quibir ficou conhecida como a Jornada de África;
. jornadear é viajar, ir dum lado para outro durante um ou mais dias;
. jornalismo é a actividade dum profissional da comunicação social;
. jornalista é o profissional não só da imprensa mas também da rádio ou da televisão. O Dicionário da Língua Portuguesa 2010, da Porto Editora, a páginas 941-2, dá para jornalista a seguinte definição: «profissional que trabalha na comunicação social, exercendo funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de fa(c)tos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a ser divulgados através de publicações, agências noticiosas, televisão ou rádio». Segundo o mesmo dicionário, jornal mantém o conceito de dia quando se trata do «salário correspondente ao trabalho de um dia» ou à «relação dos acontecimento ou actividades do dia».
Mas quem é que hoje pensa que jorna significa o salário diário? E a quem é que passa pela cabeça que a expressão jornal diário é um pleonasmo ou uma redundância? Sim, porque um jornal é implicitamente um diário. E a quem é que acode ao espírito que, quanto ao sentido, Jornal de Notícias é exactamente o mesmo que Diário de Notícias?
O tempo e o uso fizeram também com que se passasse a considerar jornal toda a publicação noticiosa e de opinião, diária ou não diária. Neste sentido, o nosso semanário é também um jornal.
O espaço de O DEVER:
Numa região como a nossa é inquestionável a valia dum periódico regionalista como O DEVER. Ele tem de continuar a viver porque faz parte de nós, os que o elaboram e os que nele vão haurir uma notícia, ou, sobretudo, uma palavra de esclarecimento ou de apoio espiritual.
Fruto de voluntariado, a ele se aplica também a frase evangélica: «a messe é grande mas os operários são poucos». Recordo-me de que, vai para quase dez anos, o nosso director, numa fase em que O DEVER mergulhava em dificuldades pela exiguidade do seu corpo redactorial, nos pôs perante o dilema da continuação ou do fim do jornal. Respondemos que por nós O DEVER não morreria. E não morreu!
O DEVER é um periódico modesto, humilde, mas dentro das suas limitações, vai até onde pode. Precisa sobretudo de aumentar o número dos seus colaboradores. Dentre os leitores, que felizmente são muitos, há sem dúvida quem esteja disponível ou para dar notícias da sua paróquia, ou para reportar acontecimentos e realizações do interesse geral, ou para transmitir a sua opinião sobre os temas mais diversificados (cultura, ciência, desporto, lazer, arte, religião, moral, etc.), ou ainda para respigar passatempos ou textos humorísticos…
Muitas vezes, o argumento de que não se tem tempo ou jeito não reflecte a verdade, pois é um facto que com um pouco de boa vontade e de esforço tornamos realidade o que antes julgávamos impossível. Por isso mesmo, aqui deixo um convite aos leitores: peguem na caneta ou dedilhem as teclas do computador e verão aparecer lentamente textos interessantes e úteis para si e para a comunidade. Irão descobrir que, afinal, têm em si potencialidades que não conheciam e sentirão a alegria de partilhar com os outros um pouco de si próprios.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (07) J. Soares / Jornal "O Dever" / 26.Nov.009.
--------------------------------------------
Rebelar e revelar;
Mugir e mungir;
Prefeito e perfeito;
Texto e testo.
Mugir e mungir;
Prefeito e perfeito;
Texto e testo.
Rebelar e revelar é um dos exemplos da troca do v pelo b. Da família "rebelar"são palavras como rebelde, rebeldia, rebelião, todas com o sentido de revolta.
Revelar, da família "revelação", "revelador", significa «descobrir, manifestar». Na esfera religiosa, a Revelação é a manifestação de Deus aos homens dando-lhes a conhecer coisas que ultrapassam a sua capacidade.
Rebelar e revelar são derivados com o prefixo re -, mas rebelar tem origem num verbo que significa «guerrear» e revelar no verbo velar que significa «esconder» e que é homónimo (tem o mesmo som e a mesma g
rafia) de velar com o sentido de «vigiar, assistir». Em rebelar o prefixo tem valor de intensidade; em revelar significa inversão (revelar é não esconder, pôr a descoberto).
É curioso que também na escrita se dá a confusão entre o b e o v: rebel, o mesmo que rebelde, de emprego raro, tem o mesmo sentido de revel. Revel e revelia empregam-se na linguagem jurídica: revel é o réu ausente do julgamento e «ser julgado à revelia» significa a ausência do réu no acto do julgamento.
Nos vocábulos mugir e mungir dá-se a coincidência de actos que podem referir-se ao mesmo ser: a vaca. Daí não ser de surpreender a troca dum pelo outro. Mugir, de origem onomatopaica (a traduzir a «voz» da vaca) é o acto de dar mugidos, próprio do gado bovino. Mungir é o acto de extrair o leite das tetas dos animais leiteiros, e mungido é o que se mungiu, o que foi ordenhado. Mas nestas duas famílias de palavras a confusão ainda é maior porque, de acordo com o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, mugido também pode ser um adjectivo com o sentido de «ordenhado», o mesmo que mungido.
Não resisto à tentação de evocar, porque sei que muitos leitores sentirão o mesmo, um dos textos do livro de leitura da 4.ª classe, intitulado «Vozes dos Animais», que despertaram o nosso interesse e por isso ficaram registados na nossa memória. Na 2.ª quadra diz assim:
«Muge a vaca; berra o touro;Revelar, da família "revelação", "revelador", significa «descobrir, manifestar». Na esfera religiosa, a Revelação é a manifestação de Deus aos homens dando-lhes a conhecer coisas que ultrapassam a sua capacidade.
Rebelar e revelar são derivados com o prefixo re -, mas rebelar tem origem num verbo que significa «guerrear» e revelar no verbo velar que significa «esconder» e que é homónimo (tem o mesmo som e a mesma g
É curioso que também na escrita se dá a confusão entre o b e o v: rebel, o mesmo que rebelde, de emprego raro, tem o mesmo sentido de revel. Revel e revelia empregam-se na linguagem jurídica: revel é o réu ausente do julgamento e «ser julgado à revelia» significa a ausência do réu no acto do julgamento.
Nos vocábulos mugir e mungir dá-se a coincidência de actos que podem referir-se ao mesmo ser: a vaca. Daí não ser de surpreender a troca dum pelo outro. Mugir, de origem onomatopaica (a traduzir a «voz» da vaca) é o acto de dar mugidos, próprio do gado bovino. Mungir é o acto de extrair o leite das tetas dos animais leiteiros, e mungido é o que se mungiu, o que foi ordenhado. Mas nestas duas famílias de palavras a confusão ainda é maior porque, de acordo com o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, mugido também pode ser um adjectivo com o sentido de «ordenhado», o mesmo que mungido.
Não resisto à tentação de evocar, porque sei que muitos leitores sentirão o mesmo, um dos textos do livro de leitura da 4.ª classe, intitulado «Vozes dos Animais», que despertaram o nosso interesse e por isso ficaram registados na nossa memória. Na 2.ª quadra diz assim:
Grasna a rã; ruge o leão;
O gato mia; uiva o lobo;
Também uiva e ladra o cão."
***
Passemos a prefeito e perfeito, palavras que pertencem à mesma família mas em que os prefixos pre – e per – conferem significação bem diferente.
Prefeito é um nome e o prefixo pre – confere o sentido de «à frente, diante de», portanto, prefeito é o que está à frente, o chefe ou a cabeça duma prefeitura. Entre nós prefeito designa o que vigia os estudantes dum colóquio e, até há alguns anos, o padre que orientava um grupo de seminaristas, uma prefeitura. No português do Brasil o prefeito é o que desempenha um cargo público equivalente ao nosso presidente de Câmara Municipal. Em perfeito derivado de fazer, o prefixo per – indica qualidade. À sua família pertencem perfeição, perfeccionismo (perfecionismo), perfeccionista (perfecionista), aperfeiçoar e muitas outras palavras. Perfeito é o que está bem acabado, o que é modelar. A pessoa de temperamento perfeccionista é a que se preocupa em fazer tudo com perfeição. Deve-se então dizer e escrever, por exemplo:
. Os alunos saíram a passeio acompanhados pelo prefeito;
. O Papa nomeou novo cardeal prefeito da causa dos santos;
. O Ministério dos Negócios Estrangeiros fez um trabalho perfeito;
. Na aula de Português foi estudado o pretérito perfeito.
Prefeito é um nome e o prefixo pre – confere o sentido de «à frente, diante de», portanto, prefeito é o que está à frente, o chefe ou a cabeça duma prefeitura. Entre nós prefeito designa o que vigia os estudantes dum colóquio e, até há alguns anos, o padre que orientava um grupo de seminaristas, uma prefeitura. No português do Brasil o prefeito é o que desempenha um cargo público equivalente ao nosso presidente de Câmara Municipal. Em perfeito derivado de fazer, o prefixo per – indica qualidade. À sua família pertencem perfeição, perfeccionismo (perfecionismo), perfeccionista (perfecionista), aperfeiçoar e muitas outras palavras. Perfeito é o que está bem acabado, o que é modelar. A pessoa de temperamento perfeccionista é a que se preocupa em fazer tudo com perfeição. Deve-se então dizer e escrever, por exemplo:
. Os alunos saíram a passeio acompanhados pelo prefeito;
. O Papa nomeou novo cardeal prefeito da causa dos santos;
. O Ministério dos Negócios Estrangeiros fez um trabalho perfeito;
. Na aula de Português foi estudado o pretérito perfeito.
***
Resta tratar de texto e testo. Texto é um nome da família de têxtil, textual, textura, contexto, tecer, tecido, tecelão, tecelagem, tecedeira e outras palavras.
Assim, o sentido original de texto é o mesmo de tecido. Em sentido figurado, texto passou a designar a ligação entre palavras, a organização de frases com sentido. Actualmen
te estão em voga expressões como tecido industrial para referir o conjunto de empresas duma área e tecido urbano em referência à rede dos elementos constitutivos duma cidade ou aglomerado populacional (ruas, edifícios, saneamento, água e luz, etc.). Já testo é a tampa de barro ou metal duma vasilha. Na linguagem popular significa também «cabeça, juízo». Na minha região, quando alguém censura outrem por estar a falar com destempero exclama:
- Cala-te mas é tu, que estás pr´ aí a falar sem testo!
Da família de testo são testa e testeira. Originariamente uma vasilha de barro ou uma carapaça, testa evoluiu de sentido para fronte, cabeça. Assim, temos frases como:
. o chefe da família senta-se à testa da mesa;
. na testeira do terreno havia uma cabana.
Fique então claro que quando se trata da tampa duma vasilha se diz e escreve testo, e quando se trata de algo que é urdido, organizado com palavras se diz e escreve texto.
Assim, o sentido original de texto é o mesmo de tecido. Em sentido figurado, texto passou a designar a ligação entre palavras, a organização de frases com sentido. Actualmen
- Cala-te mas é tu, que estás pr´ aí a falar sem testo!
Da família de testo são testa e testeira. Originariamente uma vasilha de barro ou uma carapaça, testa evoluiu de sentido para fronte, cabeça. Assim, temos frases como:
. o chefe da família senta-se à testa da mesa;
. na testeira do terreno havia uma cabana.
Fique então claro que quando se trata da tampa duma vasilha se diz e escreve testo, e quando se trata de algo que é urdido, organizado com palavras se diz e escreve texto.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (06) J. Soares / Jornal "O Dever" / 19.Nov.009
---------------------------------------Pear e piar;
Expiar e espiar;
Extrema e estrema;
Extracto e estrato.
Expiar e espiar;
Extrema e estrema;
Extracto e estrato.
Prosseguindo no assunto das palavras parónimas, começamos por pear e piar. Pear, da família de peia, “correia, corda”, pega, pegada e peugada, apear, pedestre, pedal e pedalar, despear, tem origem em pé. Por isso, em sentido concreto pear é prender o pé (dum animal) com uma corda ou corrente, pega era a corrente de ferro que se prendia aos pés dos fugitivos (não confundir com a homónima pega, “o acto de pegar” ou “a discussão” em sentido figurado); pegada e peugada são os vestígios do pé; apear é pôr a pé; pedestre é o que está a pé ou a estátua que representa alguém em pé; pedal é a alavanca movida com o pé; pedalar é accionar os pedais; despear é tirar as peias. Em sentido abstracto, pear, é «estorvar, impedir» e peia é o impedimento.
Piar, da família de pio (não confundir com a homónima pio com o sentido de «piedoso»), é a «voz» das aves, de origem onomatopaica. Na linguagem popular passou a significar «falar» e daí expressões como «perder o pio», «nem mais um pio!».
Expiar é sofrer ou remir as consequências duma culpa. À sua família pertencem expiação e expiatório.
Ao contrário de expiar, espiar não tem origem no latim. Da mesma família de espiar são espia, espião, espionar e espionagem. Espiar e espia entram também no domínio da homonímia (palavras com o mesmo som e grafia mas significado diferente. Por isso a espiar no sentido de «vigiar» corresponde espia ou espião, a pessoa que vigia, e a espiar no sentido de «fiar, amarrar» corresponde espia no sentido de «cabo». Também se não deve confundir espia com expia (forma do verbo expiar).
Em extrema, feminino de extremo trata-se, curiosamente, duma forma de superlativo: o adjectivo externo (a) faz no comparativo exterior e no superlativo extremo (a), tal como supra faz no comparativo superior e no superlativo supremo. Na linguagem política a extrema-direita designa as posições dos mais conservadores, que, por isso, se sentam à direita do presidente da assembleia, ao contrário da extrema-esquerda cujas posições de vanguarda justificam o espaço à esquerda do presidente. Também se empregam estas expressões na linguagem desportiva para designar um jogador na extremidade da direita ou da esquerda.
Extremo emprega-se também na função de nome em expressões como ao extremo, por extremo, em frases como:
- a agressividade das suas palavras foi levado ao extremo (ao auge);
- por extremo (por fim), o agressor desferiu-lhe um tiro no peito.
À família de extremo pertencem extremar «tornar extremo, assinalar, distinguir», extremidade, extremismo, extremoso. Extremista é o que está nos extremos, isto é, não admite meio termo; extremoso pertence à esfera da afectividade a significar quem é carinhoso ou apaixonado.
Voltando a extrema, até há pouco tempo um dos sete sacramentos era referido por extrema-unção, agora designado por santa-unção, que consiste em ungir com o óleo dos enfermos os fiéis que estão em perigo de vida.
De extremo derivou ainda estrema, estremar, Estremadura e estremenho. E
strema é o limite entre terrenos; estremar é delimitar, demarcar; Estremadura é a faixa do país que está no limite. É curioso o facto de na Ibéria haver duas Estremaduras: a da Espanha delimita os dois países; a de Portugal fixa o limite entre a terra e o mar por ser, na minha opinião, a faixa mais extensa e ocidental do país. A palavra estreme «puro, sem mistura», é também derivada de extremo. Nos instrumentos de consulta que compulsei não encontrei explicação para estrema e as restantes palavras começadas por es – derivarem de extremo. Mas de todas estas considerações importa salientar que não se deve confundir extrema «final, última, radical», com estrema «limite, orla, raia».
Extracto, da família de extrair, extracção, extractar, extractivo, trazer e tracto e outras palavras menos frequentes, significa «o que é tirado de», um fragmento, um segmento ou uma cópia. No Novo Acordo Ortográfico o c em presença de t desaparece e a ortografia passa a ser extrato, extratar, extrativo, extração, trato. Segundo esta grafia, só o contexto é que nos indica o sentido de trato em frases como:
- Nos seus tempos livres o João cuida dum trato (pedaço, extensão) de terreno;
- O João é uma pessoa de trato (modo, tratamento) afável.
Estrato é da família de estrada e estrado e significa «camada». Emprega-se nas áreas da meteorologia, a significar uma camada de nuvens horizontais, e da geologia para indicar uma camada de terreno sedimentar. Parece estranho que estrada seja da família de estrato, mas de facto o sentido primotivo de estrada é o de «pavimento, cobertura». Aliás, estrado é o «tapete ou sobrado».
Tomemos então à grafia correcta de extracto e estrato em frases como:
- Fui ao Banco pedir um extracto (extrato) da minha conta;
- A Luísa é oriunda dum estrato social elevado;
- O exame versou sobre um extracto (extrato) de «Os Lusíadas»;
- O céu mostrava uma camada de estratos.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (05) J. Soares / Jornal "O Dever" / 12.Nov.009

Piar, da família de pio (não confundir com a homónima pio com o sentido de «piedoso»), é a «voz» das aves, de origem onomatopaica. Na linguagem popular passou a significar «falar» e daí expressões como «perder o pio», «nem mais um pio!».
Expiar é sofrer ou remir as consequências duma culpa. À sua família pertencem expiação e expiatório.
Ao contrário de expiar, espiar não tem origem no latim. Da mesma família de espiar são espia, espião, espionar e espionagem. Espiar e espia entram também no domínio da homonímia (palavras com o mesmo som e grafia mas significado diferente. Por isso a espiar no sentido de «vigiar» corresponde espia ou espião, a pessoa que vigia, e a espiar no sentido de «fiar, amarrar» corresponde espia no sentido de «cabo». Também se não deve confundir espia com expia (forma do verbo expiar).
Em extrema, feminino de extremo trata-se, curiosamente, duma forma de superlativo: o adjectivo externo (a) faz no comparativo exterior e no superlativo extremo (a), tal como supra faz no comparativo superior e no superlativo supremo. Na linguagem política a extrema-direita designa as posições dos mais conservadores, que, por isso, se sentam à direita do presidente da assembleia, ao contrário da extrema-esquerda cujas posições de vanguarda justificam o espaço à esquerda do presidente. Também se empregam estas expressões na linguagem desportiva para designar um jogador na extremidade da direita ou da esquerda.
Extremo emprega-se também na função de nome em expressões como ao extremo, por extremo, em frases como:
- a agressividade das suas palavras foi levado ao extremo (ao auge);
- por extremo (por fim), o agressor desferiu-lhe um tiro no peito.
À família de extremo pertencem extremar «tornar extremo, assinalar, distinguir», extremidade, extremismo, extremoso. Extremista é o que está nos extremos, isto é, não admite meio termo; extremoso pertence à esfera da afectividade a significar quem é carinhoso ou apaixonado.
Voltando a extrema, até há pouco tempo um dos sete sacramentos era referido por extrema-unção, agora designado por santa-unção, que consiste em ungir com o óleo dos enfermos os fiéis que estão em perigo de vida.
De extremo derivou ainda estrema, estremar, Estremadura e estremenho. E
Extracto, da família de extrair, extracção, extractar, extractivo, trazer e tracto e outras palavras menos frequentes, significa «o que é tirado de», um fragmento, um segmento ou uma cópia. No Novo Acordo Ortográfico o c em presença de t desaparece e a ortografia passa a ser extrato, extratar, extrativo, extração, trato. Segundo esta grafia, só o contexto é que nos indica o sentido de trato em frases como:
- Nos seus tempos livres o João cuida dum trato (pedaço, extensão) de terreno;
- O João é uma pessoa de trato (modo, tratamento) afável.
Estrato é da família de estrada e estrado e significa «camada». Emprega-se nas áreas da meteorologia, a significar uma camada de nuvens horizontais, e da geologia para indicar uma camada de terreno sedimentar. Parece estranho que estrada seja da família de estrato, mas de facto o sentido primotivo de estrada é o de «pavimento, cobertura». Aliás, estrado é o «tapete ou sobrado».
Tomemos então à grafia correcta de extracto e estrato em frases como:
- Fui ao Banco pedir um extracto (extrato) da minha conta;
- A Luísa é oriunda dum estrato social elevado;
- O exame versou sobre um extracto (extrato) de «Os Lusíadas»;
- O céu mostrava uma camada de estratos.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (05) J. Soares / Jornal "O Dever" / 12.Nov.009
---------------------------------------
Comprimento e cumprimento;
Deferente e diferente;
Descrição e discrição;
Despensa e dispensa.
Deferente e diferente;
Descrição e discrição;
Despensa e dispensa.
Há palavras que se aproximam tanto no som como na grafia mas que têm significação diferente. A aproximação no som e na grafia interferem na correcção dum e doutra provocando confusões na fala e na escrita. Vamos então tratar de palavras parónimas.
Já falámos de eminência e iminência, emigração e imigração.
Sucede até que, pela lei do menor esforço, algumas dessas palavras se tornam homófonas ou homógrafas (são pronunciadas ou escritas da mesma maneira). Estão nesta situação as palavras atrás referidas e outras como pear e piar, despensa e dispensa, descrição e discrição, expiar e espiar, extracto e estrato, ext
rema e estrema, rebelar e revelar, descriminar e discriminar. Já menos confusão oferecem mugir e mungir, prefeito e perfeito, texto e testo, comprimento e cumprimento, deferente e diferente.
Antes de entrarmos a falar de cada uma das palavras apresentadas, convém salientar que em certas faixas do país os falantes têm a tendência para uma pronúncia típica. É o caso da troca do v pelo b na área do Porto e também na Beira Litoral, onde palavras como vida, vista, vontade são pronunciadas bida, bista, bontade. É também o caso da Beira Baixa, onde a palavra texto tem o mesmo som de testo. E são decerto outras especificidades de que não tenho conhecimento.
A troca do v pelo b e, embora mais rara, do b pelo v deu mesmo origem a uma paródia cujo início é: «os vonveiros boluntários de Vraga bieram a Biseu…»
Em relação aos vocábulos comprimento e cumprimento, tanto na escrita como na pronúncia a generalidade dos utentes da língua não faz confusão e até evidencia ter consciência da diferença entre ambos quando, em jeito de brincadeira, as pessoas se cumprimentam dizendo: «muitos comprimentos, larguras e alturas», prova de que, ao falarem assim, distinguem cumprimento de comprimento.
Já com deferente e diferente as coisas não são bem assim. A origem das duas palavras é a mesma, mas os significados respectivos são diferentes, em virtude dos seus prefixos. Deferente, da família de deferir, deferência, deferimento, significa «que aceita, acata, respeita, concede». Quando se é bem tratado diz-se que se foi recebido com deferência por outrem. Um requerimento termina com a frase «pede deferimento». Se o mesmo requerimento foi aceite, teve despacho favorável, diz-se que foi deferido. Em diferente, o prefixo dis – introduz a ideia de negação. À família de diferente pertencem diferir, diferença, diferençar ou diferenciar, diferencial. Diferir é discordar, divergir, adiar; diferença é a falta de igualdade ou semelhança; diferençar é distinguir ou fazer a diferença; diferencial é o que estabelece a diferença.
Com descrição e discrição não falta quem as articule da mesma maneira e quem escreva discreção em vez de discrição. Quanto à pronúncia, não é raro ouvirem-se frases como «as bebidas foram à descrição», em vez de discrição. Discrição, que nada tem a ver com descrição, significa «prudência», «reserva» e na expressão «à discrição» significa «à vontade». Da família de discrição são palavras como discernir, discricional, discriminar, discriminação, discreto e várias outras. Por isso, discriminar «distinguir, destrinçar» tem um sentido diferente de descriminar em que o prefixo des -introduz a ideia de ausência ou separação: descriminar é retirar a culpa a alguém, inocentá-lo de um crime.
Também às palavras se aplica o ditado de que «no melhor pano cai a nódoa»: discriminar, discricionário, descriminação adquiriram uma conotação negativa com o sentido de tratar desigualmente, ser prepotente, praticar uma arbitrariedade. A este propósito não resisto a comentar, citando o saudoso Fernando Peça: «E esta, hein?!»:
Quanto à grafia discreção por discrição, até parece ter alguma lógica porque se associa correctamente a palavra a discreto, discretar, discretamente, o que a torna compreensível, ainda que incorrecta.
Falemos agora de despensa e dispensa cuja pronúncia frequentemente é idêntica. Despensa, da família de despender, despesa, é o compartimento da casa em que se guardam as provisões para o consumo, assim como despesa é o gasto para adquirir bens de consumo. Já dispensa, da família de dispensar, dispensável é a desobriga ou isenção do cumprimento de determinada norma.
Mas acontece que tanto despender como dispensar significam também «distribuir, repartir, pagar», o que torna possíveis as grafias despensa e dispensa com o sentido de «lugar de guarda dos alimentos». Por isso também se escrevem com i dispêndio, «gasto» e dispendioso, «caro».
De facto, a nossa língua é bem complicada!
COMO DIZER, COMO ESCREVER (04) J. Soares / Jornal "O Dever" / 05.Nov.009
Já falámos de eminência e iminência, emigração e imigração.
Sucede até que, pela lei do menor esforço, algumas dessas palavras se tornam homófonas ou homógrafas (são pronunciadas ou escritas da mesma maneira). Estão nesta situação as palavras atrás referidas e outras como pear e piar, despensa e dispensa, descrição e discrição, expiar e espiar, extracto e estrato, ext
rema e estrema, rebelar e revelar, descriminar e discriminar. Já menos confusão oferecem mugir e mungir, prefeito e perfeito, texto e testo, comprimento e cumprimento, deferente e diferente.Antes de entrarmos a falar de cada uma das palavras apresentadas, convém salientar que em certas faixas do país os falantes têm a tendência para uma pronúncia típica. É o caso da troca do v pelo b na área do Porto e também na Beira Litoral, onde palavras como vida, vista, vontade são pronunciadas bida, bista, bontade. É também o caso da Beira Baixa, onde a palavra texto tem o mesmo som de testo. E são decerto outras especificidades de que não tenho conhecimento.
A troca do v pelo b e, embora mais rara, do b pelo v deu mesmo origem a uma paródia cujo início é: «os vonveiros boluntários de Vraga bieram a Biseu…»
Em relação aos vocábulos comprimento e cumprimento, tanto na escrita como na pronúncia a generalidade dos utentes da língua não faz confusão e até evidencia ter consciência da diferença entre ambos quando, em jeito de brincadeira, as pessoas se cumprimentam dizendo: «muitos comprimentos, larguras e alturas», prova de que, ao falarem assim, distinguem cumprimento de comprimento.
Já com deferente e diferente as coisas não são bem assim. A origem das duas palavras é a mesma, mas os significados respectivos são diferentes, em virtude dos seus prefixos. Deferente, da família de deferir, deferência, deferimento, significa «que aceita, acata, respeita, concede». Quando se é bem tratado diz-se que se foi recebido com deferência por outrem. Um requerimento termina com a frase «pede deferimento». Se o mesmo requerimento foi aceite, teve despacho favorável, diz-se que foi deferido. Em diferente, o prefixo dis – introduz a ideia de negação. À família de diferente pertencem diferir, diferença, diferençar ou diferenciar, diferencial. Diferir é discordar, divergir, adiar; diferença é a falta de igualdade ou semelhança; diferençar é distinguir ou fazer a diferença; diferencial é o que estabelece a diferença.
Com descrição e discrição não falta quem as articule da mesma maneira e quem escreva discreção em vez de discrição. Quanto à pronúncia, não é raro ouvirem-se frases como «as bebidas foram à descrição», em vez de discrição. Discrição, que nada tem a ver com descrição, significa «prudência», «reserva» e na expressão «à discrição» significa «à vontade». Da família de discrição são palavras como discernir, discricional, discriminar, discriminação, discreto e várias outras. Por isso, discriminar «distinguir, destrinçar» tem um sentido diferente de descriminar em que o prefixo des -introduz a ideia de ausência ou separação: descriminar é retirar a culpa a alguém, inocentá-lo de um crime.
Também às palavras se aplica o ditado de que «no melhor pano cai a nódoa»: discriminar, discricionário, descriminação adquiriram uma conotação negativa com o sentido de tratar desigualmente, ser prepotente, praticar uma arbitrariedade. A este propósito não resisto a comentar, citando o saudoso Fernando Peça: «E esta, hein?!»:

Quanto à grafia discreção por discrição, até parece ter alguma lógica porque se associa correctamente a palavra a discreto, discretar, discretamente, o que a torna compreensível, ainda que incorrecta.
Falemos agora de despensa e dispensa cuja pronúncia frequentemente é idêntica. Despensa, da família de despender, despesa, é o compartimento da casa em que se guardam as provisões para o consumo, assim como despesa é o gasto para adquirir bens de consumo. Já dispensa, da família de dispensar, dispensável é a desobriga ou isenção do cumprimento de determinada norma.
Mas acontece que tanto despender como dispensar significam também «distribuir, repartir, pagar», o que torna possíveis as grafias despensa e dispensa com o sentido de «lugar de guarda dos alimentos». Por isso também se escrevem com i dispêndio, «gasto» e dispendioso, «caro».
De facto, a nossa língua é bem complicada!
COMO DIZER, COMO ESCREVER (04) J. Soares / Jornal "O Dever" / 05.Nov.009
-------------------------------------------
Preferir a; acudir a
Na linguagem oral ouvimos frases em que os falantes aplicam o verbo preferir com a mesma construção de gostar mais do que, ou seja, paralelamente a frases com
o «gosto mais de ficar calado do que de falar», «gosto mais de chegar um pouco mais cedo do que atrasado», dizem: «prefiro ficar calado do que falar», «prefiro chegar um pouco mais cedo do que atrasado».
Etimologicamente, preferir significa «colocar à frente», «adiantar», «trazer diante». Deste sentido objectivo derivou o de «dar preferência a», «gostar mais de», «escolher». Neste sentido, pressupõe a decisão entre as opções que o sujeito pode tomar. A ideia de superioridade, que é expressa por mais do que, em preferir aparece contida no prefixo pre – com o sentido de antes, mais, à frente, e o segundo termo de comparação é expresso pela preposição a equivalendo a do que. Assim, as frases acima apresentadas são correctamente enunciadas:
. prefiro ficar calado a falar;
. prefiro chegar um pouco mais cedo a chegar atrasado.
A regência verbal é das matérias mais complexas da nossa língua. Os verbos transitivos indirectos são seguidos da preposição a: dedicar-se a, entregar-se a, assistir a, interessar a, perdoar a, obedecer a. Mas outras preposições acompanham os verbos:
- de: apoderar-se de, tratar de, falar de; abusar de;
- em: apoiar-se em, confiar em;
- com: preocupar-se com, ter a ver com;
- para: tender para, dirigir-se para;
- por: olhar por, esforçar-se por;
- sobre: falar sobre,
- perante: estar perante;
- após: seguir após;
- até: subir até.
Sucede que o mesmo verbo na mesma acepção pode ter mais do que uma construção:
. Chamou o amigo para conversar com ele;
. Chamou pelo amigo para conversar com ele;
. Ao amigo chamou-o para conversar com ele;
É de registar que preferir se conjuga como o verbo ferir mas etimologicamente não tem nada a ver com ele. Preferir, assim como aferir, inferir, conferir, proferir, referir, deferir, diferir, transferir, tem origem num verbo latino cujo sentido objectivo era o de «levar», «trazer» e que tinha também, por transferência para o domínio psíquico, o sentido de «suportar», «sofrer», «consentir», «apresentar», «receber». É curioso que a este conjunto de verbos pertence também o verbo desferir que é, simultaneamente, derivado de ferir. Por isso, pode significar tanto soltar, desfraldar (as velas) como aplicar um golpe, atirar, levantar:
. À voz do arrais, os pescadores desferiram as velas;
. Desferiu um golpe nas costas do adversário que o deixou prostrado.
Quanto ao verbo acudir, o «Correio da Manhã» de 29-09-2009, a páginas 20, anunciava, em entretítulo:
«Vizinhos tentaram acudir o casal, mas sem sucesso».
O verbo acudir emprega-se como transitivo indirecto no sentido de «valer a alguém», «acorrer ao chamamento de alguém», ou como intransitivo no sentido de «acorrer», «responder». Exemplificando:
. A velha tropeçou e caiu. Acudiu-lhe (a ela) a amiga, que seguia a seu lado;
. Os vizinhos acudiram prontamente aos pedidos de socorro;
. A situação não é tão má como parece – acudiu o Lucas.
Assim, a frase do «Correio da Manhã» deveria ser:
. Vizinhos tentaram acudir ao casal, mas sem sucesso.
o «gosto mais de ficar calado do que de falar», «gosto mais de chegar um pouco mais cedo do que atrasado», dizem: «prefiro ficar calado do que falar», «prefiro chegar um pouco mais cedo do que atrasado».Etimologicamente, preferir significa «colocar à frente», «adiantar», «trazer diante». Deste sentido objectivo derivou o de «dar preferência a», «gostar mais de», «escolher». Neste sentido, pressupõe a decisão entre as opções que o sujeito pode tomar. A ideia de superioridade, que é expressa por mais do que, em preferir aparece contida no prefixo pre – com o sentido de antes, mais, à frente, e o segundo termo de comparação é expresso pela preposição a equivalendo a do que. Assim, as frases acima apresentadas são correctamente enunciadas:
. prefiro ficar calado a falar;
. prefiro chegar um pouco mais cedo a chegar atrasado.
A regência verbal é das matérias mais complexas da nossa língua. Os verbos transitivos indirectos são seguidos da preposição a: dedicar-se a, entregar-se a, assistir a, interessar a, perdoar a, obedecer a. Mas outras preposições acompanham os verbos:
- de: apoderar-se de, tratar de, falar de; abusar de;
- em: apoiar-se em, confiar em;
- com: preocupar-se com, ter a ver com;
- para: tender para, dirigir-se para;
- por: olhar por, esforçar-se por;
- sobre: falar sobre,
- perante: estar perante;
- após: seguir após;
- até: subir até.
Sucede que o mesmo verbo na mesma acepção pode ter mais do que uma construção:
. Chamou o amigo para conversar com ele;
. Chamou pelo amigo para conversar com ele;
. Ao amigo chamou-o para conversar com ele;
É de registar que preferir se conjuga como o verbo ferir mas etimologicamente não tem nada a ver com ele. Preferir, assim como aferir, inferir, conferir, proferir, referir, deferir, diferir, transferir, tem origem num verbo latino cujo sentido objectivo era o de «levar», «trazer» e que tinha também, por transferência para o domínio psíquico, o sentido de «suportar», «sofrer», «consentir», «apresentar», «receber». É curioso que a este conjunto de verbos pertence também o verbo desferir que é, simultaneamente, derivado de ferir. Por isso, pode significar tanto soltar, desfraldar (as velas) como aplicar um golpe, atirar, levantar:
. À voz do arrais, os pescadores desferiram as velas;

. Desferiu um golpe nas costas do adversário que o deixou prostrado.
Quanto ao verbo acudir, o «Correio da Manhã» de 29-09-2009, a páginas 20, anunciava, em entretítulo:
«Vizinhos tentaram acudir o casal, mas sem sucesso».
O verbo acudir emprega-se como transitivo indirecto no sentido de «valer a alguém», «acorrer ao chamamento de alguém», ou como intransitivo no sentido de «acorrer», «responder». Exemplificando:
. A velha tropeçou e caiu. Acudiu-lhe (a ela) a amiga, que seguia a seu lado;
. Os vizinhos acudiram prontamente aos pedidos de socorro;
. A situação não é tão má como parece – acudiu o Lucas.
Assim, a frase do «Correio da Manhã» deveria ser:
. Vizinhos tentaram acudir ao casal, mas sem sucesso.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (03) J. Soares / Jornal "O Dever" / 29.Out.009
------------------------------------------
A letra h
em palavras simples, derivadas e compostas
em palavras simples, derivadas e compostas
É sabido que, nas palavras em que não se junta a outra consoante, o h não tem valor fonético, isto é, não se pronunciar. O nosso vocabulário dispõe de um número de palavras iniciadas por h que ronda as duas mil e quinhentas.
Por que razão então é que se escrevem com h palavras como homem, hoje, história, hidratar?
A resposta é-nos dada pela perspectiva diacrónica da língua, isto é, tomando em atenção a sua história.
O nosso alfabeto tem origem no alfabeto latino que, ao contrário do grego, continha o sinal h sem valor de som. Do latim derivou também a maior parte do nosso vocabulário. A esta realidade se refere Camões em «Os Lusíadas» quando cita as razões que, em oposição a Baco, tinha Vénus para apoiar os portugueses (est. 33, Canto I):
«Sust
entava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga amada sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina».
Mas também temos muitas palavras de origem grega, quer por via directa, decalcadas sobre palavras gregas, quer por via indirecta, através do latim, que adaptou um número significativo de vocábulos da língua grega.
Nas palavras com origem no grego, o h representa uma aspiração, ou seja, na sua articulação os falantes procediam a uma ligeira inspiração. Nas vogais e nos ditongos era com o sinal c que se marcava a aspiração. Ao serem adaptadas ao latim e, mais tarde, ao português, as palavras nestas condições foram representadas por um h: hipótese, hidrogénio, hélio, halo, halter, hecatombe, hedonismo, hegemonia, Helena, hematoma, hepatite, Hipólito.
Quanto à aspiração em consoantes, em grego havia três, que foram transcritas no latim por ch, ph, e th, e o mesmo se deu na nossa língua, em que em vez de Química se escrevia Chimica, em vez de máquina se escrevia machina, em vez de farmácia se escrevia pharmacia, e em vez de teatro se escrevia theatro.
Vejamos agora o que se passa em palavras compostas. Se forem compostas por justaposição, o h mantém-se. Assim, deve escrever-se: super-homem, anti-humano, hiper-humano, anti-herói, anti-higiénico, mal-humorado, pré-história. Se se tratar de palavras compostas por aglutinação (em maior número), então o h desaparece: desumano (des+humano), exaurir (ex+haurir), inábil (in+hábil), reaver (re+haver), reabilitar (re+habilitar), deserdar (dês+herdar).
O h mantém-se ainda em duas circunstâncias:
- em interjeições, sem valor fonético: ah! Oh! Uh!
- em conjunto com as consoantes c, l e n (os chamados «dígrafos»), para produzir outros sons:
. em ch: chave, machado, mancha, chamar;
. em lh: malho, talho, colher, velho;
. em nh: banho, manha, apanha, rebanho.
Por que razão então é que se escrevem com h palavras como homem, hoje, história, hidratar?
A resposta é-nos dada pela perspectiva diacrónica da língua, isto é, tomando em atenção a sua história.
O nosso alfabeto tem origem no alfabeto latino que, ao contrário do grego, continha o sinal h sem valor de som. Do latim derivou também a maior parte do nosso vocabulário. A esta realidade se refere Camões em «Os Lusíadas» quando cita as razões que, em oposição a Baco, tinha Vénus para apoiar os portugueses (est. 33, Canto I):
«Sust
entava contra ele Vénus bela,Afeiçoada à gente lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga amada sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina».
Mas também temos muitas palavras de origem grega, quer por via directa, decalcadas sobre palavras gregas, quer por via indirecta, através do latim, que adaptou um número significativo de vocábulos da língua grega.
Nas palavras com origem no grego, o h representa uma aspiração, ou seja, na sua articulação os falantes procediam a uma ligeira inspiração. Nas vogais e nos ditongos era com o sinal c que se marcava a aspiração. Ao serem adaptadas ao latim e, mais tarde, ao português, as palavras nestas condições foram representadas por um h: hipótese, hidrogénio, hélio, halo, halter, hecatombe, hedonismo, hegemonia, Helena, hematoma, hepatite, Hipólito.

Quanto à aspiração em consoantes, em grego havia três, que foram transcritas no latim por ch, ph, e th, e o mesmo se deu na nossa língua, em que em vez de Química se escrevia Chimica, em vez de máquina se escrevia machina, em vez de farmácia se escrevia pharmacia, e em vez de teatro se escrevia theatro.
Vejamos agora o que se passa em palavras compostas. Se forem compostas por justaposição, o h mantém-se. Assim, deve escrever-se: super-homem, anti-humano, hiper-humano, anti-herói, anti-higiénico, mal-humorado, pré-história. Se se tratar de palavras compostas por aglutinação (em maior número), então o h desaparece: desumano (des+humano), exaurir (ex+haurir), inábil (in+hábil), reaver (re+haver), reabilitar (re+habilitar), deserdar (dês+herdar).
O h mantém-se ainda em duas circunstâncias:
- em interjeições, sem valor fonético: ah! Oh! Uh!
- em conjunto com as consoantes c, l e n (os chamados «dígrafos»), para produzir outros sons:
. em ch: chave, machado, mancha, chamar;
. em lh: malho, talho, colher, velho;
. em nh: banho, manha, apanha, rebanho.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (02) J. Soares / Jornal "O Dever" / 22.Out.009
-------------------------------------------------------------------------
Aderência e adesão;
Rotura e ruptura.
Rotura e ruptura.
Frequentemente ouvimos ou lemos nos meios de Comunicação frases como:
-"A aderência à greve teve percentagens muito divergentes entre os dados do sindicato e do patronato";
-"O carro d
espistou-se porque os pneus ficaram sem adesão ao piso".As duas palavras são ambas da família do verbo aderir, que se refere tanto ao concreto como ao abstracto. Em sentido concreto significa «estar ligado a», «unir-se». Em sentido abstracto indica «estar ligado a um partido, a uma seita, a uma empresa, a uma religião, a um projecto».
Nos casos de aderência e adesão, o uso reservou aderência para traduzir a realidade física, concreta, e adesão para a esfera das atitudes da vontade humana, da abstracção. Assim sendo, fala-se da aderência de uma peça a outra (dos pneus do carro ao piso, do vidro aos caixilhos, da porta às paredes) e da adesão duma ou de várias pessoas a uma ideia, a um projecto, a uma proposta.
Da família de aderir são palavras como coerência, coerente, coesão e coeso, aplicadas ao mundo abstracto e a que subjaz a ideia de «harmonia».
São ainda da mesma família palavras aparentemente bastante diferentes como herdar, herdade, herdeiro, herança ou herdança, hereditário e hereditariedade, às quais subjaz a ideia de «ligação» ou «sucessão».
Entre rotura e ruptura passa-se algo de semelhante ao que se dá com aderência e adesão.
Rotura e ruptura são palavras da família do verbo romper. O sentido primitivo do verbo é o de «rasgar», «fender», «abrir», referido à realidade objectiva, concreta. Mas passou também para o domínio do abstracto com o sentido de «infringir», «violar» ou «quebrar» (uma regra, um acordo). Exemplos:
- em sentido concreto: o garoto rompeu as calças na brincadeira;
- em sentido abstracto: as duas partes romperam o acordo firmado entre ambas.
À família de romper pertencem palavras como roto, arroteia (nome comum e próprio de localidades), arrotear, irromper, irrupção, que se reportam à realidade física (arrotear é romper o terreno; arroteia é o terreno arroteado), e interromper, interrupção, ininterrupto, rompimento, corromper, corrupção, e corrupto, que se reportam ao mundo da abstracção, designadamente da ética ou da moralidade.
Actualmente roto emprega-se dominantemente na área do concreto mas também se pode estender ao domínio da abstracção para significar «impudico», «corrupto». Assim, sem sentido concreto temos por exemplo:
. o mendigo trazia o casaco roto;

. o terreno acabara de ser roto (arroteado).
Em sentido abstracto temos, por exemplo, o provérbio «está o mundo roto e chove como na rua», para significar que o mundo está pervertido.
Não resisto à tentação de transcrever um passo de «Os Maias» em que Eça apresenta o protagonista, Carlos da Maia, em diálogo com Rosa, uma criança encantadora, que ele amavelmente censura por proferir algumas palavras que não ficavam bem na sua boca:
«- E então que fizeste no Passeio? – perguntou ele, depois de um leve suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.
- Andei a correr, havia uns patinhos novos…
-Bonitos?
- Chinfrinzitos.
Chinfrinzitos? Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão feia?
Rosa sorriu. Fora o Domingos. E o Domingos dizia ainda coisas assim, engraçadas… Dizia que a Melanie era uma gaja… O Domingos tinha muita graça.
Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com tão bonitos vestidos, não devia dizer aquelas palavras… Assim falava a gente rota.
- O Domingos não anda roto – disse Rosa muito séria».
Na sua inocência infantil, Rosa só conhecia o sentido objectivo de roto.
Tanto rotura como ruptura significam rompimento, mas rotura emprega-se no sentido concreto, ao passo que ruptura tem a ver com outras áreas. Exemplificando:
-faltou a água porque houve uma rotura nos canos;
-o relacionamento entre os dois amigos entrou em ruptura;
-o sindicato anunciou a ruptura das negociações.
Do que acaba de ser exposto, pode concluir-se pelo paralelismo seguinte: rotura está para aderência como ruptura está para adesão.
COMO DIZER, COMO ESCREVER (01) J. Soares / Jornal "O Dever" / 15.Out.009
Nenhum comentário:
Postar um comentário